Menu:
23/set

Pois então que depois de 4 conduções, em mais um dia caótico no transporte público de São Paulo, que testou toda minha força de vontade para chegar ao JK Iguatemi, na Vila Olímpia, eu assisti a Um Pequeno Favor. Uma cabine especial para imprensa que resultou na seguinte constatação: Anna Kendrick deveria me dar bola depois do inferno que eu enfrentei para prestigiá-la.

 

Sério, eu acreditei que não chegaria a tempo para fazer parte da cabine. Basicamente, foi um teste de resiliência – e até agora tento traduzir o significado dessa batalha.

 

Assim, às vezes, eu meio que encaro algumas dificuldades como sinais.

 

(como se esforçar demais para ver o filme da sua atriz favorita e não aplicar a mesma força de vontade a 10% do que envolve suas coisas pessoais).

 

 

Se vocês acompanharam o site nos últimos dias, verão que resenhei o livro que inspirou este filme. Caso não, eu até recomendo a leitura para vocês se situarem em algumas comparações que fiz ao longo deste texto.

 

E, claro, para entrarem no clima.

 

Por ter resenhado o livro, obviamente que senti um tanto de dificuldade sobre o que contar referente ao filme sem meter spoiler. Caí na conclusão de que seria um tanto complicado porque o texto simplesmente fluiu. Quando fui ver, me usei de detalhes para embasar opiniões.

 

Então, este NÃO é um texto livre de spoilers.

 

Fake news: eu não consegui poupar o texto como havia dito na resenha do livro. Acho que chegou a hora de me conformar sobre a inexistência de chances de desenvolver duas páginas sobre o que vi/li e gostei. Amém!

 

True news: esta resenha não resenha envolve minha experiência de leitora e pseudo-cinéfila.

 

 

Um Pequeno Favor - Emily e Stephanie

 

Um Pequeno Favor (A Simple Favor) é um filme dirigido pelo homem hype da comédia chamado Paul Feig, cujo roteiro foi inspirado no livro de mesmo nome assinado por Darcey Bell. Devido ao seu enredo, que tem esse feeling de suspense sob a ótica de um desaparecimento, o título acabou sendo colocado no mesmo posto que alguns sucessos literários, como A Garota no Trem e Garota Exemplar. Porém, há algumas peculiaridades que o distanciam daqueles que praticamente fundaram essa pegada.

 

A adaptação abre com Stephanie Smothers, que é a voz desta história. Em mais um dia de exibição do seu vlog (e no livro é um blog), a carismática personagem, interpretada por Anna Kendrick, anuncia o craft do dia e chama a atenção para o sumiço de Emily Nelson, a melhor amiga interpretada por Blake Lively. Dada essa informação, o filme volta ao início e introduz duas mulheres extremamente opostas tanto no estilo de vida quanto na maternidade.

 

Emily se apresenta. Stephanie se encanta. Assim que ambas se sentem confortáveis uma na presença da outra e confiantes para obter uma da outra segredos que servem para fomentar essa dita amizade, o primeiro ponto de virada da trama é lançado. No caso, o pedido de um pequeno favor da parte de Emily e que Stephanie, muito solícita, concede sem pensar duas vezes. Um pedido que não parece ser tão grave. Afinal, não há grandes detalhes e soa como coisa de rotina.

 

Porém, os dias se passam e Emily não retorna. Com isso, não há nada que Stephanie possa fazer a não ser acionar Sean, o marido da BFF, e a polícia.

 

Stephanie é uma amiga extremamente dedicada e assume a responsabilidade de cortar as arestas sobre um sumiço que não demora a receber a (quase) drástica notícia de que Emily falecera. Mesmo com essa notícia, a vlogueira não desiste. Principalmente quando coisas estranhas, que sinalizam para a BFF, começam a sufocá-la e a norteá-la para ter certeza de que não existe quaisquer possibilidades da sua musa estar viva. Conforme cavuca, o caráter duvidoso de quem chamou de melhor amiga entra embaixo da sua pele.

 

Um caráter que não passa de um leque de podres que, ao contrário do livro, que cria paranoia e desconforto, aposta em uma única faceta de Emily. No caso, a dada a Stephanie e é essa faceta que movimenta a história e o elenco secundário (que não existe no livro). Além disso, engata vários caminhos inesperados quando conversamos sobre desenvolvimento de personagens.

 

Inesperados porque Stephanie foi escrita como uma mulher passiva. Que sofre com abuso verbal a torto e a direito (muito mais no livro). Que lidou com um marido temperamental (eu diria agressivo e deprimido, algo que ficou nas entrelinhas). Ela aceita tudo que dizem sobre si. Ela aceita ser um lixo. Dessa forma, a personagem acaba se forjando em cima de tudo isso e se torna uma figura digna de ser subestimada.

 

Daí vemos outro ponto forte de Um Pequeno Favor: o poder transformador que algumas verdades e alguns comportamentos incitam em nós.

 

Um Pequeno Favor - Emily

 

Com o conflito central dado, o que vem a partir daí é um condensar do desaparecimento. Enquanto no livro as coisas se estendem, mais por causa da narrativa de cada personagem que entrega impressões, mentiras e meias verdades, a adaptação pegou alguns pontos relevantes e criou outros para assim entregar o principal segredo de Emily. Tudo sem seguir fielmente o caminho das páginas de Bell. Foi um tapa dado mais no cerne que condiz à sombra da vida dessa personagem e nem assim minha experiência foi contaminada.

 

O desenrolar do mistério é bem distribuído ao longo de duas horas. Há um equilíbrio entre passado e presente, que desenvolve as personagens (e amei demais!). Mas, sendo honesta, o suspense em torno do sumiço não me pegou. Algo que também rolou quando lia o livro. E estou em paz isso.

 

Um fato que não nega que construíram muito bem o conceito do conflito. Ao longo da trama, há muitos sinais do problema financeiro de Emily e do resultado que veio em cima da argumentação de Stephanie sobre o seguro. Apesar do livro segurar essa questão, o filme entregou de pronto e deu embasamento. A partir daí, os próximos elementos escalaram, mas, ainda assim, não me envolvi. Como eu mesma esperava, acabei imergindo na construção das personagens – a razão de realmente ter mantido a leitura de Um Pequeno Favor.

 

Por ter o conhecimento de causa assim que entrei no cinema, a trama em si já estava blindada dentro de mim. Eu sabia o que enfrentaria. Não havia chance de decepção a não ser sobre o final e o ritmo da dança entre Emily e Stephanie. Dois pontos que eu estava muito preocupada. Eu não aguentaria duas horas de filme na companhia de duas mulheres detestáveis.

 

Esse é o tanto que A Garota no Trem me marcou negativamente e é nisso que Um Pequeno Favor acarretou diferença. No caso, a preocupação de dar tanto a nuance ruim quanto a boa de suas personagens, mas sem saturá-las em tanto mistério, em tanto disse me disse e em tantos comportamentos nocivos. O roteiro de Jessica Sharzer vai direto ao ponto e conquistou um recontar fluido.

 

Apesar das comparações, Um Pequeno Favor não tem a mesma carga emocional de A Garota no Trem e Garota Exemplar. O contexto pode ser parecido, mas Stephanie e Emily transitam mais na questão de aparências. No passado e como esse passado as transformou. Além disso, na lealdade (deturpada) feminina. O homem não é importante, embora exerça seu papel de burro da parada.

 

O enredo não se arrasta tanto ao ponto de detestarmos tudo e todos e assim largarmos sem saber como isso se conclui. De uma forma mágica, a roteirista conseguiu provocar a empatia por essas personagens porque Bell teve essa preocupação ao trazê-las o mais humanamente possível. Desde os pontos vulneráveis até os que as tornam as piores versões de si mesmas, elas formam um enigma gostoso de acompanhar.

 

Elas montam e escalam em seus segredos e o filme fez um trabalho muito legal em se usar até mesmo do figurino para criar esse distanciamento que Stephanie e Emily têm sobre si mesmas. Inclusive, para afastar a realidade de ambas, além de dar poder de contestar se elas são realmente aquelas pessoas. Tudo que as compõe, desde o terno a um par de meias de bichinho, em conjunto com os respectivos backgrounds, é responsável em lhes dar uma (quase) inquebrável fachada. E o sumiço vem para destruir as fachadas de maneira que ambas se enxerguem cruamente e decidam o próximo passo para que nada se torne uma biografia não autorizada – por assim dizer.

 

Um Pequeno Favor - Dennis e Stephanie

 

Para além do sumiço, o humor ajudou muito a manter o filme interessante. Isso rendeu uma experiência diferente, pois, no livro, tudo que senti por Stephanie e por Emily foi raiva. Mais pela Emily porque Stephanie me deixou várias vezes desamparada (?). Uma compete com a outra para ver quem é mais irritante visto que ambas já se assemelham como donas de segredos que a sociedade acharia de má-fé ou criminal (e não deixa de ser criminal em alguns aspectos).

 

No filme, a dupla é divertida mesmo que intimamente corrompida. Elas claramente se curtem. Emily conquistou um tom mais escrachado, justamente para vender essa de mulher bem-sucedida, descolada e com discurso (fake) feminista. Já Stephanie, me lembrou demais a Alison de Orphan Black, inadequada, passiva, Mãe Capitã e mulher que usa o que falam (mal) de si para entretenimento.

 

E sabemos que mulheres como Alison Hendrix não curtem ser passadas para trás.

 

No humor se entremeou passagens de efeito graças ao intento de Feig em mimicar Alfred Hitchcock. A pegada noir. Enquanto rimos, há súbitos cortes secos em determinadas cenas e que fazem com que o desaparecimento não seja esquecido. Nem mesmo quando Emily é dada como morta.

 

Além disso, a relação de Emily e de Stephanie é embasada em uma edição de som que é sedutora e sutilmente aterrorizadora. Cada trilha, seja cantada ou instrumental, acompanha grandes entradas, olhares de canto, o silêncio constrangido e o desejo de Stephanie em pertencer ao mundo de Emily.

 

Esse tremeluzir, que também serve para cutucar a moral de Stephanie e para transparecer que Emily não é tão legal, é espalhado em momentos que parecem comuns ou imaculados. Desde a introdução de Emily até o retornar das roupas da própria ao guarda-roupa que Stephanie limpou, o close e a trilha lembram que não vemos uma comédia.

 

O livro engaja curiosidade sobre essas mulheres que não se distanciam da nossa realidade. Stephanie e Emily são verossímeis e isso é uma vitória de conteúdos desse gênero. Meramente porque o intento é nos deixar desconfortáveis. Afinal, algum fragmento remeterá há algo que escondemos. Tudo bem que o filme foi bem neutro nesses quesitos, porque Feig visou Um Pequeno Favor para ser divertido e não mergulhado totalmente em cada podre criado por Bell. Inclusive, no suspense. Por essas ausências quase completas, não houve desconforto. Nem a reflexão sobre que lado tomar ou a quem detestar. O que tornou essa adaptação equilibrada. Como mencionei lá em cima, sem saturar trama e personagem. E, claro, muito mais cômica.

 

O que me faz comentar a questão do incesto. Eu fiquei com medo dessa abordagem, mas, graças ao tom que deram para Emily, assim que ela descobre esse podre do background de Stephanie, a influência negativa dessa revelação foi mínima. Na real, esse ponto se tornou parte do cômico e, ao meu lado, não vi ninguém desconfortável.

 

Mas esse ponto me deixou desconfortável durante a leitura. Inclusive, há muita angústia da parte de Stephanie nesse quesito. Como é parte do julgamento dela, esse papo é muito intenso, vívido. Porém, não é problematizado no enredo. O que me faz reafirmar a questão do desconforto. Esses livros querem nos deixar à flor da pele com assuntos prontos para julgamento.

 

Um Pequeno Favor - Emily e Stephanie

 

De qualquer maneira, somos norteados por uma Emily que queria muito saber do segredo obscuro de Stephanie. E queremos saber quem é Emily de verdade. De novo, não há o peso esmagador sobre elas e a experiência se tornou prazerosa. Feig queria um filme que unisse diversão e suspense, e ele conseguiu. Funcionou. Não tem como não rir – e rir de nervoso a cada reviravolta. Não menos importante, sair fortemente baqueado das ideias e com vontade de gritar.

 

Da mesma forma que o livro, o mistério não é exigido a todo o momento. De quebra, não há zona de estresse no filme justamente porque a história de Bell não é um quebra-cabeça. A premissa é rasa, não tem caldo para configurar estrondo, e a roteirista percebeu que tinha que deixar tudo mais interessante. Daí veio o santo humor com ênfase nas personagens. As frases prontas, os trocadilhos, os trejeitos. Eu me deixei levar por tudo isso porque o sumiço perde seu valor.

 

Stephanie nos norteia com eficácia. Ela vai em frente, motivada pela preocupação que se dissolve ao se ver impelida em reagir conforme desvenda os segredos da dita melhor amiga. Cada descoberta faz do chão em que pisa um total campo minado. Um campo minado regado de traições, de omissões e de deturpação de informação. Alguns conflitos que abalam a figura de uma Mãe Capitã que preza bom caráter. Que fez do bom caráter seu escudo para que ninguém a conhecesse mais a fundo.

 

Ao menos, é o que acreditamos.

 

Kendrick disse algo muito importante sobre o que verdadeiramente atrai em Um Pequeno Favor: onde está o seu caráter? Você está disposto a saber o background da pessoa para ela agir de forma X ou você já é a pessoa que fomenta sua opinião e nem se dispõe a olhar além da linha tênue? Quando a vi dizer isso, me dei por mim que o filme seria só sobre Emily e Stephanie. E foi basicamente assim, não muito distante do livro que não tem seu mistério destacado com o mesmo pulso firme que transcorre em títulos como A Garota Exemplar.

 

Mas existe o mistério. Mais detalhado nas páginas de Bell e confesso que a adaptação perdeu bastante nesse quesito. Porém, Paul e Jessica escolheram dar atenção às suas atrizes. Inclusive, criar uma mistura de gêneros cinematográficos.

 

Das páginas para as telonas

 

Um Pequeno Favor - Sean e Stephanie

 

Há vários pontos importantes sobre a transição de um livro para o cinema. É importante pesar se a essência não se perdeu. Se as ideias mais relevantes foram bem enxugadas pelo roteirista e se essas ideias manterão seu sentido.

 

Em uma entrevista, Feig afirmou o que comentei na resenha do livro: o texto de Bell já tinha um bom formato, mas precisava de um upgrade para funcionar nas telonas. As alterações não foram drásticas, mas concisas, especialmente porque focaram no desenvolvimento da personagem de Kendrick. Algo que, quando me dei conta, me senti muito homenageada. Queria demais!

 

Quando se diz que o livro de Bell tem um bom formato é porque a história impede grandes ou novas invenções estrondosas. O enredo em si é bem amarrado, entrega as pistas de mão beijada e não traz as complexidades que muitos sentiram ao ler Garota Exemplar.

 

Um Pequeno Favor saiu do papel para as telonas de acordo com a essência e o formato criados por Bell. Não tenho do que reclamar! A obra tem um conflito central fácil e raso. Quando você descobre a razão do sumiço de Emily, o interesse meio que cai. Você só vai em frente porque Stephanie e ela tragam. Por causa delas, a narrativa é envolvente e é nisso que Um Pequeno Favor vence.

 

E perde na conclusão, mas o filme deu um upgrade que logo comento.

 

No papel, a história não é leve em comparação ao que é visto no cinema. Não pensem em algo impactante, pois não é. Refiro-me mais aos comportamentos dos personagens, como Sean. Ainda assim, há a fidelidade de ser uma trama sem grandes migalhas e retalhos, porque o objetivo é acompanhar duas mulheres brincando de gato e rato. O que soa meio ruim, mas envolve lealdade.

 

Dentre tantas preocupações que eu tinha com a adaptação de Um Pequeno Favor, também incluo o como intercalariam os pontos de vista delas aos de Sean e vice-versa. E aí que dou destaque aos flashbacks que foram usados a fim de contradizer os pontos de vista de cada uma. Basicamente, o que rola no livro (que não aposta em flashback por ser uma história linear).

 

A diferença é que Emily teve seu ponto de vista mais camuflado no cinema justamente para que Stephanie agisse conforme aquilo que absorve na voz da sua dita melhor amiga. Para que víssemos o que Stephanie não vê – e no livro é tudo entregue. Nelson seguiu sendo a dominante no final das contas, embora a história sobre as gêmeas tenha sofrido uma alteração que a suavizou no processo.

 

Os retrocessos não quebram o compasso do filme e isso foi muito importante. Mal utilizado, o roteiro fica truncado. O que não é o caso de Um Pequeno Favor que conquista pela sua fluidez.

 

Uma fluidez em meio ao caos. E está aí algo meio complexo de se alcançar. Até mesmo de explicar porque é nonsense!

 

Os flashbacks fortaleceram o ditado – o que os olhos não veem, o coração não sente. Cada retornar no tempo serve de âncora para as conversas entre as duas e é precisamente nesses instantes que a vemos fora de suas realidades. Sem as máscaras diárias que se usam para controlar o próprio meio.

 

Ou quase.

 

Um Pequeno Favor - Emily

 

Se eu for mencionar um ponto negativo (que nem é tão negativo assim), esse vai para a ausência quase completa do peso psicológico de Emily para cima de Stephanie. Inclusive, para cima de sua gêmea que é a verdadeira razão dela tentar mudar o jogo assim que é descoberta e leva a dita BFF junto. É nessa presença sufocante, sem escrúpulos, que a personagem gera a típica irritação que não fez parte da adaptação. Ela é muito mais serpente que o mostrado no filme, embora o roteiro tenha dado o suficiente para impactar.

 

Certeiramente, a roteirista sabia que não precisava de muito para derrubar a máscara dessa mulher. Bastou uma única cena efetiva – que é seu principal (se não o único) ponto de virada que conta o limite que estava disposta a ir com seu plano.

 

No livro, Emily é um tantinho mais cruel e uma das cenas que ficou comigo foi como ela controla Sean assim que se reencontram depois que Stephanie a desvenda. Já no filme, ela ganhou uma nuance cativante, tanto pela sua caracterização quanto pelos últimos instantes em companhia de sua irmã. O que me pareceu muito intencional para gerar o choque. Quem diria que a personagem chegaria àquele ponto, né? Pior que no livro há mais detalhes e eu fiquei apenas não podicê?

 

De maneira geral, Sharzer enxergou muito do que eu enxerguei ao longo da leitura de Um Pequeno Favor. Muito embora existisse o impasse do desaparecimento de Emily, o livro de Bell engaja devido às personagens e o filme traz o melhor de ambas. O tempo entre Anna e Blake é justo, bem distribuído, e o texto dá o suficiente para nos envolver com elas – ou não.

 

Na resenha do livro, eu também disse que Um Pequeno Favor atiça os cinco sentidos. Você olha para todos os lados, sente de todos os cantos, lateja no agridoce dessa relação, quer triscar em cada textura e quer apurar cada ruído que indique que Emily está à espreita. O filme faz o mesmo trabalho e, de quebra, manteve detalhes importantes na construção das personagens – especialmente de Emily.

 

Vale dizer que o roteiro arriscou em alguns pontos no intento de manter o mistério, o que foi muito bom. Afinal, eu matei muita coisa cedo demais ao longo da leitura.

 

Inclusive, alguns diálogos das páginas foram para as telonas. Não que considere isso muito relevante, mas isso sempre traz um tom de familiarização. E vale dizer que amei o fato de várias falas serem complementares e funcionarem como marcas registradas de Stephanie e de Emily.

 

Embora tenha rolado essas e outras alterações nessa transição das páginas para as telonas, o conflito seguiu sendo o ponto deslocado. No filme, não teve tanta profundidade se eu parar para pensar no livro, que rega com muito mais detalhes. O quadro das gêmeas (que foi trocado pela imensa vagina da personagem de Blake) pode ter sido até uma entrega óbvia de Bell, mas trouxe uma mitologia em torno do segredo de Emily. Além disso, deu peso ao verdadeiro caráter dela e que me deixou revoltada.

 

No filme, ela não entra como a gêmea dominante, sendo que ela é sim. Comportamento que acabou sendo reservado à Stephanie e ainda não com o peso igualado de amedrontamento criado por Bell.

 

Um Pequeno Favor - Emily e Sean

 

Apesar de você ficar envolvido do começo ao fim, o mistério não segura a adrenalina por muito tempo e adrenalina é uma das palavras-chave de Emily. Pode ser que muitos tenham metido pau em Um Pequeno Favor por conta disso. Principalmente quem realmente caiu nessa de que daria de cara com algo muito próximo de A Garota no Trem ou Garota Exemplar.

 

Eu sempre acho bom ler o livro antes de ver o filme. Ou se informar. Isso pode fazer a diferença.

 

No livro, eu fiquei mais indignada. Mais precisamente com o recontar do cerne da história de Emily que é visceral. Não que no filme não tenha rolado algo parecido, mas aqui temos um roteiro que se apegou a vários elementos surpresa para conseguir criar sua sequência de reviravoltas. Dentre eles está o incitar da simpatia/empatia e o amolecer diante do background de cada uma – ainda mais de Emily. Tudo pensado para gerar compreensão diante dos comportamentos no presente.

 

Dessa forma, o conflito do sumiço perde para as personagens. Anna e Blake as levam como uma segunda pele e eu fiquei envolvida do começo ao fim. As duas representam a questão de as aparências enganam e enchem os olhos. Eu conseguia muito ver Anna como Stephanie, mas Blake como Emily foi uma revelação. Algo que cabe ao fato de que não conheço muito os projetos da atriz e fui surpreendida. Assim, muito mesmo, porque tenho forte em mim Serena van der Woodsen.

 

O filme deixa claro quem é o elo mais fraco e sempre fico com um pé atrás quando esse tipo de personagem é responsável em nortear a história sozinha. Justamente porque elas são facilmente irritantes e muito mais fáceis de criar abandono se não contarem com uma boa mão na escrita. Repetindo o que já argumentei aqui, eu tenho dificuldade de me envolver com essas personagens.

 

Mais porque há autores e roteiristas que as desgastam na premissa da coitadinha ou da imoral, como rolou em A Garota no Trem. Daí se nasce minha antipatia e ranço por tempo indeterminado – e me sinto culpada depois porque são mulheres e sempre tem algo mais na penumbra. Aqui, Stephanie é a “coitada” do ponto de vista alheio, que não sabe os terrores que ela carrega e que ela jamais dividirá.

 

Até Emily mudar isso e aí vemos uma personagem apática ser vitoriosa.

 

A química perfeita

 

Um Pequeno Favor - Stephanie

 

Apesar de ter sido uma cabine especial para imprensa, quem me levaria ao cinema para conferir Um Pequeno Favor seria a própria Anna Kendrick.

 

E o que posso dizer sobre ela? Eu estou muito orgulhosa, sabem? Principalmente porque sou órfã da Era Amor sem Escalas. Tudo que queria nos últimos tempos é que AK fosse protagonista, mas sem ser em comédia. Sei que é basicamente sua marca registrada, mas ela se dá bem com drama.

 

E ela fez umas comédias que, às vezes, me vejo no completo WTF?

 

Kendrick norteia o filme e segura o humor com propriedade. Não é um gênero novo para ela, porém, Stephanie contou com um desenvolvimento que, como eu disse, não esperava. Por se tratar de uma personagem passiva e que paga até que muito caro por essa passividade, acompanhar sua transformação nas telonas foi outro ponto alto de Um Pequeno Favor.

 

Para mim, foi equivalente ao grito da pantera.

 

A atriz fez sua personagem transitar entre o cômico, o omisso, o desconfortável, o desejado, o inseguro, o indefeso, o raivoso… Stephanie passa por muitas emoções que são camufladas em um sorriso gentil enquanto seu interior grita. No livro, ela abraça o caos e se ferra no processo.

 

No livro, Stephanie não é uma personagem desafiadora. Mesmo que todo o seu segredo tenha construído a versão blogueira/vlogueira e a mãe perfeita que comparece a todos os eventos do filho. A roteirista se usou dessa verdade para tornar essa personagem o coração pulsante de Um Pequeno Favor. Além disso, mais atraente em comparação ao imaginário de Bell.

 

E, a pedido de Kendrick, menos irritante.

 

Eu senti que o filme não deu muita profundidade de causa, entregando apenas o seu grande podre em dois flashbacks suficientes e cruciais, sendo que há outros questionamentos. Contrário a tudo que eu esperei, sua amenização ocorre para que rolasse um melhor entendimento do que acontece ao seu redor.

 

Inclusive, para que o final do filme funcionasse do jeito que funcionou.

 

Algo que só foi possível de se realizar e de alcançar, com aquela euforia, com aquele desentendimento, com aquele pingue-pongue desconexo, ao se amenizar Sean e Emily. Os dois são extremamente abusivos com Stephanie no livro. No filme, isso ficou por conta de Emily que manipula os dois, mas não quer dizer que a vlogueira conta com muita gentileza. Ela é atacada e tudo se suaviza na comédia. Uma comédia que beira a uma fortíssima depreciação.

 

Emily recebe o papel de abusadora emocional e curti muito uma colocação de Sean no filme: o gaslighting. Toda a faceta ruim e perversa ficou com essa personagem e sua manipulação mexe com o juízo de todo mundo. Não como no livro, mas é o suficiente no filme visto que o objetivo era tornar a trama leve e divertida (contradições?). Os diálogos dessa mulher são tão importantes quanto os detalhes que Stephanie nota em sua melhor amiga. A fala, o modo de andar, os frames do passado, como mente e controla o marido… De certa forma, foi muito interessante vê-la nessa posição de abuso, porque, em sua maioria, homens assumem esse posto na ficção (e é correto).

 

A diferença aqui é que essa mulher não perde o glamour ao tentar vencer sobre a dupla passiva da trama.

 

Um Pequeno Favor - Emily Fake

 

Blake vestiu a dominante com perfeição, com um gingado de toda brincadeira ter seu fundinho de verdade. Ela deu a Emily o tom envolvente, sexy, misterioso. A presença dela cria faísca em cima da aparente tradicional e puritana Stephanie que, para minha alegria, não fica por baixo.

 

O ponto de auge da atriz é, sem dúvidas, na cena das gêmeas. Instante que estava sedenta para ver também porque mexeu com todos os meus botões (e não sabia se Blake já tinha feito algo parecido na carreira). Justamente pelo final drástico e sem respeito algum da parte de Emily. Foi nessa cena que Blake entregou seu potencial ao revelar o que sua personagem realmente não é: a vítima.

 

Só que eu senti falta de mais angústia porque a troca das gêmeas não é tão rápida. O peso dado por Bell nessa passagem teria feito mais diferença para a Stephanie versão cinema. É nessa que a Mãe Capitã espirala e começa a tirar a BFF do sério (e ela mostrando o dedo do meio no filme, eu berrei). De novo, a questão de um roteiro enxuto que trouxe o que verdadeiramente importa ou viraria uma encheção de linguiça. E aqui não temos encheção de linguiça.

 

Pensamento que vale para a falta de explicação sobre a real de Emily em decidir pelo que fez. Em vez disso, apostaram em sua fragmentação de facetas. A Emily de Sean não era a mesma de Stephanie e assim por diante. Ela joga com as pessoas e essa é a essência real da sua caracterização. A personagem é narrada como manipuladora de informação e isso foi levado para o cinema.

 

Mas… O que eu queria que tivessem mudado não mudou e sigo sem curtir muito. Não darei esse spoiler porque ele é realmente crucial, mas está interligado ao Sean e Stephanie endossa.

 

O mais inebriante da relação das duas é como Stephanie a admira e como tenta ignorar o ínfimo desejo de ter uma vida contagiante como a de Emily. Por ser a pária, que todos zoam, que usa meias fofinhas e que tem regra anti-palavrão, Kendrick entrega jeitosamente, quase a troco de nada, o quanto determinadas influências são sugadas por nós. E são essas influências que se tornam cruciais conforme o desenrolar do desaparecimento. Algo que me fez lembrar de algumas comédias dos anos 90, regadas de frases de efeito da vilã e que são repetidas pela mocinha na reviravolta.

 

O filme em si pesa nessa transformação de Stephanie tendo Emily de reflexo. Foi muito sensacional como a vlogueira pensa na amiga sumida e tenta incorporar o que viu e ouviu durante as sessões de martíni. O que não deixa de ser cômico, mas é o início da sua transformação. A Mãe Capitã sabe que seus rótulos são incômodos, que a deixam sempre para baixo, sendo que não é sua verdade. Ela não se acha uma boa pessoa e os vizinhos insistem que sim.

 

Um Pequeno Favor mostra, do ponto de vista dessa personagem, o quanto o passado faz um alguém criar uma nova versão de si. E, nessa nova versão, é possível criar outra. Principalmente se for motivada pela necessidade de proteção.

 

Só sei que Anna e Blake seguram o filme do início ao fim.

 

Blake me ganhou no instante em que aparece pela primeira vez, com efeito contrastante. Trotar dos saltos. Vento e chuva em câmera lenta. Cabelos bagunçados. Logo, ela entrega que é uma péssima mãe, escrachada e tudo mais. Ela não tem papas na língua e o engraçado é que houve uma mudança aqui. O segredo que ela tira de Stephanie é um meio de dar shame nela.

 

Ainda assim, Stephanie a idolatra, especialmente porque Emily é a mãe trabalhadora. Ela é bonita, sofisticada, a cool mom afiada e desencanada. A personagem tem cargo importante, ganha horrores, banca a casa e tem um marido capacho. Too much information que soa desimportante, mas afeta como a vlogueira se vê. Inclusive, como age, pois se absorve os maneirismos da BFF.

 

Aqui temos duas mulheres que são muito diferentes, mas possuem uma coisa em comum: elas são subestimadas. É difícil acreditar que até Emily se encaixe nessa percepção, mas é aí que entra seu marido, o controlado. O que resume Um Pequeno Favor também da seguinte forma: os limites que uma mulher pode ir quando dizem que ela não é capaz. 

 

Caso perguntem, Stephanie e Emily não vivem uma rivalidade feminina. Nem brigam por causa do homem, embora o homem seja motivo para que se estranhem por segundos irrelevantes. É uma amizade estranha de se explicar porque não deixa de ser uma amizade abusiva.

 

Mas, assim como no livro, elas meio que se unem. Porém, não é garantia que o resultado final dê certo. É uma relação conflituosa porque nos é entregue o caráter de ambas e ambas não sabem tanto uma da outra – ou acham que sabe. Enfim, gente, eu não conseguiria explicar o que rola aqui, pois é bem capaz que passe pano em alguém sem querer (aka Emily).

 

Anna Kendrick e Blake Lively não podem ser mais subestimadas. Não depois da experiência em Um Pequeno Favor. Repito que Lively está abismante e distante do seu marco em Gossip Girl. Já Kendrick, tenho que endossar um pouco o que disseram sobre Stephanie ser o melhor papel da sua carreira. Amo Amor sem Escalas, que é meu ponto de referência para basicamente tudo que envolve a AK, mas este projeto realmente trouxe a quebra que ela queria.

 

Kendrick entrou nessa para repaginar sua carreira e sua imagem. No caso, sair de A Escolha Perfeita e de Beca Mitchell. De fato, funcionou. Da vivência de mulheres grávidas, ela entrou em um círculo desafiante que foi ser definitivamente uma mãe. E uma mãe que tem suas garras.

 

Com personagens multifacetadas e que as desafiam, ambas assumiram papéis que entregaram seu amadurecimento como atrizes. Eu quero que elas continuem assim e cresçam bastante.

 

Extra: the gay panic

 

Um Pequeno Favor - LGBT

 

O roteiro de Um Pequeno Favor foi escrito por quem já navegou na produção de conteúdo LGBT. No caso, Sharzer dirigiu um episódio de The L Word (4×04) e participou na cadeira de produtora em American Horror Story. Só que a versão livro não traz uma nesga de viés LGBT.

 

Como não é segredo para ninguém (porque Kendrick contou em uma entrevista), Stephanie e Emily se beijam. Isso não tem no livro. Por não ter no livro, fiquei bolada com o contexto.

 

Em Era em que estúdios e canais de TV extrapolam no queerbaiting, Um Pequeno Favor contemplou essa quina em todo seu processo de divulgação. Tinha muito gay vibes e eu vivi fingindo que nada disso acontecia (porque eu ficaria com raiva). Quando Kendrick revelou sobre o beijo, meu coração parou ao mesmo tempo que gritou. Depois das emboscadas de A Escolha Perfeita 3, eu não estava muito empolgada para ser enganada de novo. Só que eu perdi o senso quando li essa informação.

 

Se o contexto é bom? Eu curti. Criaram um clima fortíssimo de interesse antes do fatídico beijo.

 

O filme se preocupa em mostrar Stephanie sendo tragada por Emily e ficar encantada a cada novo encontro. É atração que se camufla em admiração. A vlogueira não pensa duas vezes em fazer tudo pela BFF. E pensa muito no bem-estar da BFF. E se imagina na pele dela. Há uma cena muito boa, logo no início, em que Emily se desfaz da sua roupa e a Mãe Capitã fica atenta. O foco na câmera em cada punho e na região do colo de Emily caiu como uma luva para o que seria mostrado no futuro.

 

Blake Lively fazendo praticamente um striptease mexeu com meus ovários.

 

Acho que deve ser mal de Stephanie/Stefanny?

 

Por mais que no livro não tenha o beijo, há um instante em que Stephanie se pergunta se é lésbica (depois de um ato que também mexeu com meus ovários). Talvez, foi esse o insight que Sharzer se usou para explorar a sexualidade dessa personagem. Não tão aprofundadamente, mas foi ok.

 

Stephanie é muito solitária e o filme não esconde um minuto sequer essa questão. Sem contar que ela quer ser amada já que não conseguiu isso nas mãos dos homens que conviveu. Emily dá esse afeto (as pernas tremeram em cada baby, não vou mentir) e ela é tratada com aparente zelo.

 

Quando, infelizmente, Emily a vê como mero bibelô.

 

E Stephanie acredita nessa afeição e isso abre para a cena do beijo. E eu amei muito essa cena.

 

A título de informação, eu vi o beijo no Tumblr. Não soube na hora como me senti, mas, depois do sofrimento com Bechloe, ver Anna Kendrick beijando garotas me fez cuspir um arco-íris.

 

Vale dizer que a empresa de Feig (que produziu o filme) preza por diversidade e há personagens não-brancos em cena (mas não o suficiente para ser justo). Inclusive, Um Pequeno Favor conquistou o ReFrame Stamp, um selo concedido a conteúdos que contratam mulheres em 4 a 8 áreas de produção (escritora, diretora, produtora, líder, co-líder, diálogos, chefes de departamento e equipe). Essa é uma parceria com o IMDbPro para ver se tem rolado mesmo mulheres em postos de relevância na TV e no Cinema.

 

Stephanie é enaltecida

 

Um Pequeno Favor - reviravolta Stephanie

 

Mas você vai falar da Stephanie de novo? Ah, vou sim! Some respect com minha xará.

 

Porque eu preciso comentar sobre o final do filme (e não tem spoiler). A grande cereja de Um Pequeno Favor por justamente tranquilizar o que mais temia.

 

Comentei na resenha do livro que Stephanie é tratada como o peixe nas mãos de Emily. Além de aceitar o abuso verbal e emocional, a Mãe Capitã é uma people pleaser. Um traço da sua personalidade que é uma constante e que transpareceu sem dificuldade no filme. Pela personagem carregar a história do sumiço, o que mais desejei no final da leitura foi que ela conquistasse uma reviravolta. O livro não me deu isso, mas o filme sim. Foi nisso que o longa venceu para mim ‎100%.

 

Um fim cômico e gostoso de ter comparecido. Um fim que arranca o último riso, aquele histérico, que você dá porque ou menosprezou a história ou porque não esperava que uma personagem como Stephanie crescesse e se manifestasse tão oposto ao que foi apresentado. Ou porque tudo é tão confuso que não restou nada a não ser mesmo rir de desentendimento.

 

Eu saí do cinema sem saber o que digerir, honestamente. Porém, deslumbrada fiquei.

 

Um Pequeno Favor conquistou sua vitória no encerramento. Uma vitória que entregou algo importante: caracterização. Quando não se tem suspense, os personagens são as âncoras.

 

Se Stephanie não tivesse desenvolvido em reflexo de todas as ladainhas de Emily e de Sean, acredito que a conclusão não teria funcionado como funcionou. Da unilateralidade da personagem no livro, a roteirista explorou facetas o suficiente para compor seu final que prezou o humor negro.

 

E, claro, valorizou Kendrick.

 

E mandou a mensagem de que a vulnerabilidade pode ser uma catapulta de transformação.

 

Como assim? O filme tirou o resultado comum dado a personagens passivas. Às vezes, por um preço que elas nem mereciam arcar. Algo que Bell fez em seu livro e eu fiquei muito amuada.

 

A vlogueira é a resposta ao que mencionei sobre absorver comportamentos. O chavão, que foi vendido até como um comportamento feminista por Emily – e que não condiz com sua personalidade. Quando as reviravoltas se iniciam, Stephanie parte a posição beatificada. Chega um ponto que ela não quer ser apenas a mulher que faz o cara dormir como um bebê (ou ser a mãe dele), porque ela também quer ser aquela que consegue ser mequetrefe para se proteger.

 

Stephanie é a real personagem subestimada. Junto com Emily, ela tira a trama da inércia.

 

Eu fiquei muito contente com o trabalho em cima da Stephanie, pois, automaticamente, exigiram mais do papel de Kendrick. O cômico era tão fachada quanto à solicitude de Emily em saber dos segredos da melhor amiga e ser a descolada do pedaço. Tudo, mas tudo mesmo fachada. Uma fachada que irradia e entretém. Vocês não têm ideia do quanto fiquei feliz.

 

Ao longo do filme, vemos uma mulher que pede desculpa por tudo até ser indesculpável. E estava aí algo que eu não esperava ver. Eu estava pronta para consumir a passividade completa de Stephanie e me irritar demais com ela no processo (desculpa Anna!). Não esperava tantas alternâncias de humor e de comportamento. Pegada que criou o conflito entre a verdade e a falsidade. Tanto no papel quanto nas telonas, a vlogueira criou o contraste diante de Emily, que é a personagem pronta e que tem consciência do seu mau-caratismo. Enquanto a Mãe Capitã, além da vergonha, se sente muito culpada pelo seu background que é o bastante para fazê-la aceitar que tem péssimo caráter também.

 

Stephanie foi enaltecida e merece o mundo. Nada mais importa se não for minha opinião.

 

Concluindo

 

Um Pequeno Favor - Sean e Stephanie

 

Repetindo a mensagem: Um Pequeno Favor nasceu para ser subestimado graças às suas personagens que são subestimadas. Em meio ao seu clima noir, que conflita o gosto pessoal de Stephanie e de Emily, aqui temos um resultado que não dá para discutir com exatidão. Mas, se há outra emoção a se destacar, é a confusão que fica. Não tem como não ser pego de chofre.

 

Além do mais, fica aquele gosto de que nada foi levado a sério. Parece que foi brincadeira e cada troca de cena não pareceu ter conexão com a outra. Ao menos, no quesito trama, pois os personagens, até mesmo os secundários, prendem e contribuem para o compasso.

 

Inclusive, os secundários meio que omitem uma palavra preferida de Emily (no livro): o peixe. Cada personagem em cena é um peixe em alerta vermelho. Como Rupert Friend na pele de Dennis Nylon. Vocês não sabem a agonia que foi não saber que personagem ele interpretaria. E eu não me aguentei com os vizinhos que simplesmente passaram na face a assinatura de Feig para o cômico.

 

O “grande problema” de ler o livro antes de ver sua adaptação é que você meio que vê a coisa toda da sua cabeça ilustrada no cinema. Eu me senti assim várias vezes ao longo de Um Pequeno Favor, mas, como mencionei, havia um instante que já tinha minha preocupação total: o final.

 

E chego aqui muito saltitante com o resultado de Um Pequeno Favor e acho que estou muito apaixonadinha. Principalmente porque, graças à leitura, eu não tinha tantas expectativas. Eu queria curtir mesmo Kendrick nas telonas, nada mais que isso. Não esperava que a experiência fosse ser excelente e agora conto os dias para o lançamento oficial – pois eu verei de novo sim.

 

A essência e a construção do enredo do filme se embasaram fortemente no livro. O que me faz mencionar outro detalhe: o vlog. Meio de comunicação de Stephanie muito valorizado na trama e que contribui para a dinâmica da história. Assim como a trilha sonora, a versão Youtuber serviu de fonte de impacto e de transição. Além do mais, como foco de mudança na caracterização dessa personagem. Algo que o blog não traria. Tal viés deixaria tudo arrastado e menos palpável.

 

Ao menos, é o que acredito visto que Um Pequeno Favor é puro movimento.

 

Preciso falar também de Henry Golding, o Sean, e oficializar meu crush. Um Pequeno Favor é seu segundo filme e estou dominada pela curiosidade de vê-lo em Podres de Ricos ou Asiáticos Podres de Ricos (em que lá ele é um protagonista). O personagem, marido de Emily, também contou com uma suavizada extrema, como a mudança de carreira (eu juro que ri inside com essa de escritor). O ator me fez digerir Sean um tanto mais, mas segui sem simpatia. O que ele faz no livro me deixa estressada.

 

Estresse à parte, Anna, Blake e Henry renderam uma escolha perfeita para um filme que não se encaixa em um único gênero. Que brinca a todo momento e camufla a evidente premissa rasa. O mesmo para as crianças! Mais precisamente Ian Ho, que dá vida ao Nicky, filho de Emily e de Sean. Ele confronta a personagem de Kendrick sempre que há chance e arranca ótimas risadas também.

 

Um Pequeno Favor - Stephanie e as crianças

 

Um Pequeno Favor não prometia ser um furacão cinematográfico, mas tem conquistado muitos comentários positivos. É um filme fresco, que foge da saturação do circuito de heróis. De romances mamão com açúcar. De indies com o mesmo contexto para entrar na lista de premiações. É quase irônico pensar que temos um projeto que nasceu para ser subestimado tão quanto suas personagens. Eu mesma não dava nada por conhecer o livro.

 

Aqui temos comédia, uma pincelada de drama e um suspense que resvala na magnitude das protagonistas. Obviamente que o humor salva a experiência. Ele pesa não apenas para o lado da Anna, mas da Blake também. Emily é o humor sarcástico. Aquele seco arrematado com um sorriso doce.

 

O mesmo pensamento vale para a pegada sutil de Hitchcock que Feig se empenhou para enraizar no longa. Com direito a uma abertura de introdução, antes do filme começar, maravilhosa.

 

Fazia muito tempo que não me divertia no cinema e Um Pequeno Favor trouxe isso para minha vida. E era exatamente esse o intuito de Feig. O diretor não queria florear o texto de Bell para entregar um filme mais complexo, daqueles com grandes riscos de ter mais furos que uma meia roída. Embora a adaptação mantenha seu ritmo de pistas fáceis e de mistério condensado (se pensarmos na quantidade de pontos que há no livro), o roteiro acompanhou a visão de seu diretor.

 

Há muitas reviravoltas que sinalizam para a questão do caráter. E é quando retorno ao questionamento de Kendrick: você aceitaria essa de a primeira impressão é a que fica ou partiria para além da linha tênue? Independentemente da sua escolha, eis um filme que é insano. Que te deixa perturbado das ideias e sem muito nas mãos para refletir.

 

Male, male, Um Pequeno Favor tenta sair do comodismo de uma história que é batida no ramo literário. A garota que some. A samaritana que busca. O marido como primeiro culpado. Além das atrizes, o que vence aqui também é o tom suave e solto, daquele que não se prende no seu suspense para dar conta do recado. O suspense vive, mas não é a muleta do roteiro.

 

O roteiro apostou no quanto o papel das aparências pode abalar até quem menos se espera. E o quanto descobertas e circunstâncias são capazes de revelar o pior de nós.

 

Se Paul Feig deu vida a um filme que representa seu lado sombrio? Não posso afirmar com precisão, mas sei que ele se encontra em uma fase de experimentos na carreira. Penso que isso é importante e ele nunca deixou de confiar neste projeto.

 

O que sei é que Um Pequeno Favor é humor ácido e seu requinte é nem um pouco tácito. Não é um trabalho inovador, mas foi um ótimo trabalho. Ele topou o desafio de criar um thriller e assim o fez. Contudo, não se esqueceu de acrescentar a sua peculiaridade cômica. A entrega foi dentro do proposto e do esperado. Com direito a melhorias. And that’s it. That’s the review.

 

Um Pequeno Favor é um filme fácil de desprezar, mas você sabe que, em algum instante, o verá de novo e perceberá que viciou. Basicamente, o carma que se carrega ao se aventurar na Feigland.

 

E eu digo por mim: encontrei meu novo vício. Aquela vontade muito familiar de viver dentro do filme de tanto que ele ainda vive em minha cabeça. Parece que voltei à fase Segundas Intenções.

 

Espero que vocês se divirtam/divertiram no mesmo tanto que me diverti. ❤

 

Crédito das imagens: reprodução.

Stefs
Postado por:       

       
Aproveite para ler também
Escreva seu comentário antes de ir <3