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24/out

Chega um ponto da nossa vida em que alcançamos a encruzilhada que se caracteriza unicamente na analogia de cortar o cordão umbilical. Um ponto que coincide precisamente quando alcançamos a vida jovem adulta, ou um pico da própria vida adulta, que grita por individualidade. Inclusive, por independência. Soma que gera um único quadro: quebrar as amarras com aqueles que nos botaram no mundo. Neste caso, com a figura materna.

 

Uma figura que tem sua representação de diversos modos. Que tem várias nuances para cada um. Aqui, destaco aquela em que se cria uma inversão de papéis. A filha se torna a mãe e a mãe se torna a filha. Um tipo de quadro que pouco se discute, mas muita gente vive. Ao ponto de não se ter ideia de que esse “modo” de relação familiar pode ter atingido um nível extremamente tóxico. Afinal, você deixa de ter sua vida por justamente se preocupar com alguém em um nível que se aproxima da dependência emocional.

 

Em outras palavras, daquele jeito em que sua independência é sempre protelada por achar que seu pai, sua mãe, ou ambos, não sobreviverá sem você.

 

Quando atingimos um determinado pico da vida adulta, muito se escuta que devemos sair de casa. Em determinada idade, é inadmissível morar com os pais e isso é um tipo de cobrança que muitos não conseguem corresponder. Uma cobrança que não precisa ser levada tão a dedo, mas é, como ter que casar antes dos 30. O que deixa de ser totalmente saudável, especialmente porque a falta dessas conquistas é motivo de chacota. É como se a pessoa não tivesse objetivo, sendo que o objetivo pode estar fora da receita tradicional.

 

De certa forma, caçoar de alguém que mora com os pais aos 20 e poucos anos e + é uma agressão porque, normalmente, você não sabe o que rola do outro lado. Eu trato isso com o mesmo peso de que uma mulher casada precisa ter um filho no mês seguinte, sendo que não é uma “obrigação”. Como também não deveria ser uma obrigação sair de casa. Nem todo mundo nasce pronto para atender ambas as expectativas dentro das regras da sociedade – regras essas malas demais.

 

Em um passado não tão distante, eu me agarrei a esse peso de ter que sair de casa. Por anos senti vergonha de ainda dividir o apartamento com a minha mãe e evitava o assunto. Eu nunca deixei de ter minha independência nesse compartilhamento, como a financeira. Porém, só o fato de dividir o mesmo ambiente com um parente me fazia indagar a minha própria vida adulta. Um peso a mais sobre tanta coisa que lido diariamente e que, atualmente, me vejo mais preparada para arcar.

 

A ideia de morar sozinha sempre veio com problemas internos. Que nada tem a ver com dependência. É medo mesmo visto tudo que já me aconteceu. Eu precisava do meu tempo.

 

Sem contar que eu vivo uma inversão de papéis desde meus 14 anos. Um ponto que transformou demais a minha vida e que sempre deixou aquele senso de falta de libertação. Meramente porque eu sou o pilar e, se eu sair de cena, tudo provavelmente despencará. Afirmação que pode ser sim algo da minha mente, o que calha no quanto as pessoas dessa relação também se sentem subestimadas.

 

A verdade é que não sou obrigada a sentir vergonha de dividir um teto que sempre me deixou segura. Em contrapartida, lidei e lido com os impasses de ainda morar com um parente e este ano tem sido uma tremenda revelação para mim nesse quesito. Daí que resolvi assistir a este filme chamado Columbus e sigo amando quando um tipo de arte entra na hora certa em minha vida.

 

Columbus - Casey

 

Sendo redundante, Columbus é um filme de 2017, situado em Columbus, Indiana. Uma pequena cidade que, dentre tantas coisas, celebra bastante seus prédios modernistas. A razão para muito turismo devido à sua estrutura arquitetônica. Além disso, um ambiente perfeito para o debut de Kogonada, diretor e roteirista, que explorou, com um ponto de vista deveras intimista, a trajetória de Jin e de Casey.

 

Jin, interpretado por John Cho, é filho do renomado arquiteto que daria uma palestra na cidade se não fosse sua súbita internação. Casey, interpretada por Haley Lu Richardson, é uma entusiasta da arquitetura que acredita que não pode seguir seus sonhos graças à sua dependente mãe. Duas vidas totalmente opostas que colidem em um instante ruim – e sou muito sucker dessas premissas.

 

Antes desse encontro, descobrimos um pouco, mas o suficiente, sobre Casey. Já na primeira cena, ouvimos essa personagem narrar sobre a arquitetura de um prédio. Baixinho. Sozinha. Aparentemente empolgada com a visitação do pai de Jin na cidade. Em outra cena, a vemos discutir sua carreira na companhia de Ben, o melhor amigo, e ele deixa claro que se formar em Biblioteconomia não é uma boa pedida. Não quando ela recebeu uma oferta para trabalhar com arquitetura, a área que ama verdadeiramente. Oferta essa que se revela como a ponta do iceberg de Columbus.

 

Casey ama a arquitetura de Columbus. Entretanto, é muito fácil acreditar que se trata, a princípio, de um hobby. Afinal, sua experiência na biblioteca local parece tudo que precisa visto que é perto de casa, tranquilo e ainda a mantém em contato com todo o visual da sua cidadezinha natal. Só que as intromissões mentais, que dizem que há muito mais além daquele lugar que diz tanto gostar, a perturbam. Ela tem paixão, curiosidade, dedicação (em forma de notas sobre arquitetura) e inteligência. Traços claros de uma personagem que pode saltar a linha tênue e ir em busca do que crê. Só que a jovem finge que esse desejo não é seu e, quando ouve o oposto, a desconversa é escape.

 

Já Jin é chamado em Columbus para dar assistência ao pai arquiteto. Nem um pouco feliz, pois ele vem diretamente da Coreia e teve que largar seu emprego no mercado editorial a fim de dar atenção a quem nunca lhe deu essa mesmíssima atenção. O personagem não esconde a frustração com o fato de acabar de vigília no hospital por alguém que nunca dialogara. Algo que se desenvolve na companhia de Casey, que se sai como uma velha amiga que o compreende como ninguém.

 

Columbus - Jin e Casey

 

Para ter contrapostos, Jin revela que não é fã de arquitetura. Chega até ser engraçado quando ele afirma que não curtiria Casey devido a essa mesma paixão que move seu adoecido pai. Porém, há equiparidade. Há respeito e interesse mútuos que engajam luzes que definem o trajeto a seguir.

 

Fica evidente que a palavra arquitetura é um ponto semelhante entre esses personagens. Porém, não é tudo que os une. Na primeira vez em que se comunicam, Jin aponta que vive um dia ruim. Ou um ano ruim. Casey é tragada para tal atmosfera de angústia e de ruminação por experienciar algo semelhante. Lado a lado, ambos conversam e contemplam as belezas arquitetônicas de Columbus.

 

A arquitetura, sendo a paixão de um e a repelência de outro, é o ponto ligado ao sentimento. Mais precisamente, ao pai dele e a mãe dela. Mesmo que de formas distintas, esse cerne é muito capaz de dar profundidade aos interesses, aos medos e às descobertas que batem forte no coração dos dois.

 

Casey tem a jornada mais trabalhada e aprofundada no filme. Vira e mexe, ela é chamada de turista por Jin, justamente por dominar toda a arquitetura de Columbus e não se levar a sério. Ela fala sistematicamente de cada prédio e em que ponto de sua lista de favoritos cada um se encontra. Uma aparente frieza de altear as sobrancelhas porque falamos de um amor que a personagem reprime. Assim, a oferta de seguir a carreira no que evidentemente ama a faz ser professoral. Seu método de puro distanciamento.

 

Sendo que há muito amor envolvido e isso chama atenção de Jin. Ele é o personagem de suporte, que se sai como a opinião neutra, mas muito cutucadora de botões. Ele é o ponto de vista sem contaminação e que pode ser tudo que uma pessoa precisa em dado momento. Suas assertividades entregam a real missão desse encontro inusitado: um ajudar o outro a sair do tempo nublado que compõe suas vidas no âmbito mais delicado. No caso dele, o pai. No caso dela, o quebrar do cordão umbilical que ainda existe com sua mãe.

 

Ele representa o adulto que sacode uma jovem que reluta sobre partir. É aí que se abre o grande ponto de tensão de Casey. Além de achar que nada funcionará na rotina da sua progenitora se seguir seus sonhos, bem longe de Columbus, há um marco que mudou essa relação para sempre.

 

Columbus - Arquitetura

 

O domínio de Casey sobre arquitetura é o que leva o filme. É o que traz os aesthetics que expressam a visão de Kogonada em destacar o plano de fundo como uma ilustração do que transcorre lá no âmago. A composição de Columbus possui uma tremenda profundidade e sua lentidão se faz bem quista por casar com a ruminação de dois personagens que precisam se permitir um tanto mais. Precisam se deixar ir. Precisam liberar o sentimento que os trancafia. Ver o que há do outro lado.

 

Não é uma tarefa fácil, mas, no fim, ambos encontram o início real de suas trajetórias.

 

De certa forma, os dois se entendem. Como se fossem almas destinadas a fazer parte um da vida do outro pelo ínterim de tempo em que ambas as partes precisam de esclarecimento sobre a angústia que inspira o debate interno. Casey só tem um amigo, cuja visão não contribui para sua angústia. Jin até tem uma companhia, mas sua visão do pai é tão forte que apenas Casey é capaz de cutucar a ferida de um modo (quase) imparcial. E imparcialidade é uma boa palavra que define Columbus.

 

Ambos agem e reagem em linhas neutras ao longo de cada conversa, embora as verdades que trocam um com o outro sejam estremecedoras. Casey ilustra o quanto é, às vezes, bom dialogar com estranhos porque não há julgamento. Não aquele do qual estamos habituados a ouvir de quem conhecemos. Aqui temos duas pessoas distantes e distintas, mas, ao mesmo tempo, muito próximas em seus dramas. Maduras em suas perspectivas. A vida os fez crescer muito rápido. Seja pela situação ou pela origem. E eu mesma me identifiquei com todo esse contexto.

 

Contando um pouco da minha história, eu me vi silenciada inúmeras vezes por morar com a minha mãe, sendo que meu quadro é basicamente o que faz de Columbus uma história verossimilhante. Quase minha própria história, tirando o resultado final que ainda não me pertence. Eu ainda vivo no teto compartilhado e tenho planos de sair daqui no ano que vem. O que bate em outro impasse pessoal: o horror pungente de deixar minha mãe (supostamente) para trás. Ela nunca deixará de ser minha mãe, mas, uma vez fora, parece que é essa a impressão que ficará.

 

Além de muitas outras, obviamente.

 

Columbus - Casey e Jin

 

O jeito como Jin e Casey são tragados um para o outro faz acreditar que acompanhamos almas gêmeas amigas. Nisso, o roteiro transcorre e transmite perfeitamente o quão intrínseca pode ser a vida mesmo em sua obviedade. Ambos não se encontram em uma grande cilada. A cilada aqui é a escolha.

 

Escolher partir e deixar a mãe. Escolher estar com o pai mesmo que o quadro não se altere.

 

É quando Columbus entrega sua preciosidade, muito além da arquitetura: as relações humanas.

 

Jin e Casey se desenvolvem mutuamente nessa história sem premissa fixa. Os dois se diferem em problemática, mas a arquitetura é o escape que serve de uma pacificidade para pensar nos dilemas. Juntos, eles pincelam e engrandecem a proposta do viés de roteiro de cada um. Juntos, eles criam nuances melancólicas em cima do que veem e do como o que veem funciona para si.

 

Apesar de Columbus ter dois protagonistas maravilhosos, Casey é o destaque. Ela nos leva, sem dificuldade, para sua angústia que reflete em uma inversão profunda de papéis com sua mãe. Desde a adolescência, ela assume o cuidado da progenitora. Juntas, ambas testemunharam o fundo do poço, mas é essa personagem que esboça as cicatrizes e como essas cicatrizes a impedem de partir.

 

A prova da realidade de que um instante é o bastante para nos entrevarmos de maneira a aceitar que não podemos ir mais além. Não quando o espaço que ocupamos soa como o mais correto.

 

E é quando Columbus começou a conversar verdadeiramente comigo.

 

A dificuldade de partir

 

Columbus - Casey

 

Eu vivo em uma inversão de papéis. Roteiro que não é de hoje, pois sou a filha-alfa desde os 15 anos. Sem me pedirem, eu assumi o papel de mãe da irmã mais nova, mãe da própria mãe e, de vez em quando, sou a figura do “homem provedor”. E tem o cuidar que, por vezes, estou exausta para simplesmente me preocupar.

 

Daí há uma verdade unânime nessa inversão de papéis: o trabalho de revertê-la e partir.

 

Na inversão de papéis, não há a quem culpar, mas há muita culpa embutida. Primeiro porque você não sabe como reorganizar o tabuleiro, ou seja, colocar cada um de volta ao seu papel. Eu como filha. Minha mãe como mãe. Minha irmã mais nova como irmã mais nova e não a filha que eu não tenho – e ouvi recentemente que minha irmã é a figura paterna e isso meio que explodiu meus neurônios.

 

Em uma relação dessas, há sim certo comodismo. É confortável, pois uma assegura a outra. É bom ter a mãe sempre ali do ladinho, mas isso entrava ainda mais o desejo de você se expandir como pessoa. Além de dar a sensação de que não se pode partir porque dependem de você pra tudo.

 

E não é bem assim.

 

(e falo assim considerando meu cenário mesmo, ok?)

 

Por outro lado, essa inversão de papéis sempre deixará alguém mais exausto por ser a ponta do pilar que dá sustento ao resto. No caso, eu sou essa pessoa mais exausta, embora tudo aqui seja dividido e cada uma tenha sua responsabilidade. É uma corrente que parece um pecado quebrar visto o tanto de porcaria que lidamos juntas. Soa egoísta ir embora “depois de tudo que passamos”, mas, realmente, chega uma hora que você precisa sair para assim respirar por conta própria.

 

Na inversão de papéis, os atritos gerados pelos anos de convivência sempre se repetem. E são esses atritos repetitivos que desgastam e que requer o fazer de malas para se reconquistar sua identidade.

 

Identidade? Sim. Na inversão de papéis você nem sabe mais quem é na hierarquia porque você assume tudo que estiver ao seu alcance – e até o que não existe como forma de contenção. Apesar de eu ter minhas responsabilidades, não me sinto uma verdadeira adulta. Não por mim mesma.

 

E é quando você cansa de tanto ruído e se desespera atrás da mudez.

 

Uma mudez que é outro processo angustiante a se alcançar.

 

Nesse caso, há um ideário mental de que a quebra do cordão umbilical trará mais dor que alívio positivo. Não é uma meta de felicidade, mas de angústia. De novo, a questão de que você está sendo egoísta em deixar seus pais depois de “tudo que passaram juntos”. Assim, partir se torna outro peso. Um peso desnecessário já que se trata de uma decisão comum a todos os humanos. Em contrapartida, há o rastro da impressão de que não haverá uma libertação. E, infelizmente, haverá pessoas torcendo para que você retorne com o rabo entre as pernas, o que dobra a tensão porque você vai querer “provar o oposto”.

 

Um oposto que, particularmente, não pesa tanto quanto à sombra de quem você deixará para trás porque é onde entra a culpa. Uma culpa que não deveria existir porque você decidiu ter sua própria vida. Uma vida sem as nuances e as sombras dessa inversão de papel. De qualquer forma, partir é um ato em que você quer se ver sem o histórico da inversão a fim de se redescobrir e de se achar individualmente. Decisão que pode dar certo, como também pode dar errado – e aí vem o outro peso de ter orgulho de pedir para voltar.

 

O que configura que a partida sempre será delicada, independentemente se o motivo for justo para todas as partes. Deixar um convívio familiar, que foi seu casulo por anos, é transformador e tem plena capacidade de transformar tudo em uma mutação que, infelizmente, pode ser irreparável.

 

Meramente porque o outro lado do tabuleiro pode compreender sua partida como algo negativo. E isso pesa bastante em que vive uma inversão de papel ou outro tipo de convívio que é tóxico.

 

E aí temos que engolir e seguir adiante porque nossa trajetória é só a gente que faz.

 

O que pode render um resultado extremamente positivo. Inclusive, pode ser até o que faltava.

 

Columbus - Casey e mãe

 

Casey vivencia a inversão de papéis. Um assunto de relevância em Columbus e que pode passar despercebido. Afinal, a personagem cuida dos afazeres enquanto a mãe trabalha, sinalização que rola bem no comecinho do filme, tempo em que conhecemos a rotina da protagonista. Uma rotina aparentemente normal e saudável. Porém, a relutância dela em partir é uma séria problemática e que é entregue em todas as pausas de contemplação.

 

Ela é a mãe da casa, o que contribui para sua hesitação em partir. Ela é a mãe que não conquistou sua própria narrativa ritmada pelo amor por arquitetura. Há a recusa, que vem do falso desejo de ficar com uma pitada de falso conformismo, cenário exposto em todas as vezes que Casey sai para contemplar seu prédio favorito. Há o desejo, que oscila quando se vê abordada por quem partiu e conquistou as coisas por conta própria. Sem espiar pelo ombro.

 

Essa personagem vive uma batalha dual que muitas pessoas podem se identificar. Não é um mistério da vida. Mas a vida também em essência. Em muitos casos, não é culpa de alguém.

 

Entre os 14/15 anos, Casey acompanhou o marco da sua história com a mãe: o coração partido da matriarca que se traduz em um dedo podre para homens. Essa experiência foi profunda, pois a impulsionou a ser a figura materna e assim levar esse papel com grande afinco para a vida. A personagem se viu atingindo o fundo do poço com esse desdobramento, porque a sua responsável foi tão fundo também ao ponto da filha se esforçar para aliviá-la e tirá-la desse breu sufocador.

 

Daí vocês me dizem: é o “trabalho” de toda filha. Sim, mas em partes. Casey deixou de pensar na sua própria vida porque ver, conforme os anos se passaram, sua mãe repetir o mesmo ciclo requereu o fortalecer desse monitoramento. Fortaleceu sua figura de mãe da própria mãe, algo que fica evidente no filme. Ela assume o papel da mãe e vive sempre em alerta. Sempre preocupada. Lidando com um alguém que mente. Por essas e outras, a personagem crê que a figura materna é incapaz de se virar sem sua presença. Sem ter alguém para colocá-la de volta à realidade.

 

E por saber o que ocorre com a mãe desiludida, Casey assume a retaguarda. O que torna (supostamente) inviável a ideia de partir. No caso do filme, aceitar uma proposta para estudar fora.

 

Uma vez que hábitos nascem na inversão de papel, dificilmente eles morrem. Digo isso por mim. No caso de Casey, ela vive seu próprio ciclo vicioso que é alimentado pela mãe. Uma mãe que, de quebra, só piora o senso de preocupação da própria filha. O que forma uma gritante dependência emocional, que pesa mais para o lado materno que mal consegue cozinhar por conta própria.

 

A filha aqui assumiu o papel de mãe e cumpre todos “os deveres maternos”. E a mãe é confortável com isso, o que dá a impressão de que qualquer intenção de partida será a ruína dessa relação. E Casey sofre, mas não quer expor essa emoção pela culpa. Principalmente pelo egoísmo que não existe. Afinal, ela tem sonhos e é ok ter sonhos. Porém, sua vida está travada nessa dinâmica.

 

Está travada no medo da mãe não aguentar ficar sem sua presença. Então, para evitar qualquer dano, o melhor é ficar. O que traz a outra verdade sobre a inversão de papéis: você se sente tão responsável por quem deveria ser responsável por você e acredita que será o fim do mundo quebrar essa relação.

 

Não soa meio abusivo? No mínimo tóxico?

 

Columbus - Casey

 

Na inversão de papéis, a filha se vê coletando erros da mãe no intento de evitar que os mesmos se repitam ao longo da sua vida. A filha sempre vigia. Pergunta. Telefona. Se preocupa. Casey não arreda o pé dos calcanhares da mãe e tudo que ela tem no fim do dia é exaustão. Quem deveria cuidar nessa relação não cuida, embora esteja consciente de suas responsabilidades.

 

Como a financeira.

 

Casey é uma menina melancólica e que acredita que não pode aceitar uma grande oportunidade no ramo do qual é apaixonada. Enquanto algumas crianças são desprendidas em deixar o ninho com tamanha independência e de cabeça feita, outras penam um tanto mais e chegam a não conseguir de tão profunda que é essa inversão de papéis. Parte de mim se traduz dessa maneira, ainda entre mãe e irmã, pois sou o bloco que ainda segura um teto que pode cair na menor menção de que chegou a hora de eu simplesmente ter meu rumo. Ou não, como rola com essa personagem.

 

Um rumo que vai sendo alimentado no âmago em meio a conselhos que você é plenamente capaz de ir. Que você não tem mais idade para morar com sua mãe. Que você merece ter um canto para chamar de seu. Que você… Há muitos conselhos que infectam quem vive nessa inversão de papel e, honestamente, há muitos que não gosto de ouvir. Não se trata apenas de ainda viver com a mãe, mas de toda uma história que fez dessa relação uma corrente que, aparentemente, não sobreviverá se uma simplesmente quebrá-la.

 

É muito mais complexo. Até mesmo para tentar expor em texto.

 

Em Columbus, partir não é sobre uma questão da dor da perda. Ou de não ter o apoio para ir. A premissa trata o como a situação ficará uma vez que você deixar alguém que (supostamente) depende de você para seguir caminhando. Nisso, entram os conselhos, que tentam aliviar aquela angústia e que dão a impressão de que dar no pé será o mesmo que iniciar o fim do mundo.

 

Esses conselhos vem na forma de Jin e acredito que todo mundo tem um Jin. É por meio dele que Casey finalmente ouve que precisa partir. Ele entra na vida dela como uma consciência – e vice-versa – e diz que ela precisa reconhecer que se colocar em primeiro lugar não é errado. Ela ama a mãe, apesar de carregar seu mundo e o dela nas costas. A mãe a ama, e ambas se compreendem apesar da clara inversão que é extremamente tóxica ao ponto da filha relutar em partir.

 

Ao ponto da filha se subestimar. Acreditar que está bem onde está. Garantir que curte demais o trabalho na biblioteca da Universidade e que não precisa de novas experiências para evoluir.

 

Há mais que a prende no não e que não tem nada a ver com o pressuposto de estar velha demais para morar com a mãe. Ela ainda pertence ao quadro mais jovem do dilema de ser adulto, pois, como disse, há essa inversão que a impede de simplesmente ser. Seja o que esse ser for. Um ser que não é manter o posto de figura que vive para a casa e que vive para a mãe.

 

Columbus - Casey e Jin

 

Em meio a uma grandiosa expressão arquitetônica, cada prédio enumerado e destrinchado oralmente por Casey parece a visão de todos os seus medos e de seus receios de aceitar uma oferta inesquecível. Há um instante crítico em que ela narra a importância do seu prédio favorito, mas o distanciamento dessa mesma narrativa é fisgado brutalmente por Jin. A jovem narra seu amor mecanicamente, como uma turista, sendo que há uma conexão emocional. Uma conexão que reflete um interesse que acabou reprimido para não dar razão ao desejo de ser e de seguir no que almeja genuinamente. Para não desconstruir que partir será bom para si.

 

O que calha no medo. O medo de sair da superfície e de conquistar um novo mar por conta própria.

 

Na inversão de papéis, muitos sonhos são calados no processo. Você acaba calada porque há a impressão de que não resta mais nada a não ser aquilo. A não ser representar aquele papel de responsável por todos que compõem a casa. Não é algo que queremos, porque simplesmente acontece. É circunstancial, embora remeta sempre há algo profundo, como a mãe de Casey ter seus relacionamentos e não obter nenhum final feliz com eles (e se degradar no processo).

 

A desistência de ter uma vida à parte, em circunstâncias como as de Casey, se torna a parte mais vívida e dolorosa desse ciclo vicioso. E eu sei muito bem disso. É uma oscilação constante, que rebate em qualquer nesga de encorajamento de simplesmente sair. Justamente pelo pensamento de você crer, considerando todas as dificuldades e o que abraçou nesse processo, de que tudo desmoronará se você sair.

 

E aí temos a grande questão: como é que você sabe?

 

Não sabemos, mas nos sabotamos e deixamos o que queremos para depois. Colocamo-nos abaixo das prioridades enquanto elevamos, e alimentamos, o fato, que pode não ser um fato, de que os pais não viverão sem a nossa presença. Que eles não se virarão sem nossa companhia. Inversão de papéis tange a codependência que pode se tornar sim extremamente tóxica em inúmeros casos. É aqui que mora o real risco de muitas pessoas se machucarem no processo. Inclusive, desistirem completamente dos sonhos porque as raízes desse ciclo estão absurdamente profundas.

 

Na inversão de papéis pode haver muita e pouca conversa. Casey e a mãe têm pouca conversa, o que aumenta o conflito interno dela em expressar a vontade de simplesmente ir. Entre argumentos e contra-argumentos, a mesmice se destaca: minha mãe não conseguirá se virar sem mim.

 

Contexto que pode ser coisa da mente e que também pode se traduzir no medo. Norte que Casey representa, pois, sua insistência no motivo de não aceitar a oferta, também soa como medo de dar um salto solitariamente. Soa como a desculpinha que contamos para nós mesmos para evitar qualquer novo passo adiante. Independentemente de haver verdade em querer assumir a bronca.

 

Em Columbus, não é uma desculpinha da parte dessa personagem. Embora entre no capítulo de “verdades que contamos para nós mesmos e que precisam ser descontadas urgentemente”.

 

Columbus - Casey e sua mãe

 

A inversão garante longos e profundos instantes de ruminação da parte de Casey. Uma angústia velada por meio de pausas longas na narrativa, o que pode dar a algumas pessoas a sensação de que o filme é extenso e cansativo. Contudo, essas pausas fazem parte do contexto da premissa, pois simbolizam o ponderamento e a introspecção de sua personagem. É a passagem de tempo que amplia a arquitetura destacada do filme e intensifica suas cores porque se trata daquilo que está engasgado dentro de nós e que parece que não tem saída. Quando, às vezes, a saída está bem ali, muito além do costumeiro meio-fio.

 

Jin e Casey se igualam por ter o mesmo cordão umbilical que os une às suas figuras responsáveis, mesmo depois de certa idade. De maneira que os faz questionar a própria existência. Enquanto um parece muito esclarecido em abrir mão do pai, o outro reflete no quanto sua mudança pode se tornar a continuação de um pesadelo. Ambos se assemelham no contemplar da mudança, regada sempre de medo. Uma mudança que exige demasiada bravura não apenas para ir, mas para se reivindicar. Algo que cabe mais a Casey que não tem voz graças à inversão de papel.

 

Uma voz que se ausentou indiretamente devido à sua representação de mãe e não de filha.

 

Entre pausas certeiras e lágrimas contidas, Columbus traz várias formas de amor, mas dá mais atenção ao amor que nos impulsiona para fora do casulo. Para fora da visão que temos de nós mesmos e que sempre foi ditada pelos nossos pais. O filme transmite perfeitamente o quanto não é tão simples para alguns jovens adultos e adultos deixar seus lares. Deixar seus pais. Aqui, não há o espectro da vergonha, mas do caos que isso pode se tornar uma vez que você decide sair de cena. Isso, com base em seguir nossas paixões e, finalmente, encontrar nosso verdadeiro eu.

 

Fato que se une à questão de independência. Ao nos desprender do ciclo comum, abrimos novas portas. Quem vive a inversão de papéis, abre chance também para se descobrir individualmente.

 

Seguir nossa paixão não é fácil. Alguns conseguem. Outros não. Mas, seja como for, este filme transparece o quão difícil é cortar o cordão umbilical com aqueles que, supostamente, dependem de nós. Além disso, que ditaram nosso estilo de vida ao ponto de não nos reconhecermos – o caso de Jin. Quando representamos a parte mais pesada do convívio familiar, chega uma hora que precisamos lutar contra. Sair do papel da mãe quando devemos ser os filhos, com o mesmo direito de ir e de vir, sem temer o futuro. Sem culpa de construir nossa própria narrativa.

 

Casey é o retrato honesto e intenso desse espectro de querer partir e de acreditar que nunca poderá porque sua mãe não suportará. A inversão de papéis tomou boa parte do seu poder de decisão, mas nunca calou seu verdadeiro amor por arquitetura. Um amor que a manteve viva. Que a manteve com os pés no chão. Que serviu de escape para que suportasse os períodos mais escuros da mãe. Ela é resistente, mas sua melancolia transborda e o falso ceticismo a torna ainda mais profunda.

 

Mais motivos para assistir

 

Columbus - Jin
Columbus se deu muito bem no circuito independente e muito me espanta com o pouco que se fala dele. Para além das suas premiações e indicações, que reconheceram Kogonada e seu roteiro, eis um trabalho íntimo. Tão íntimo que aconselho uma experiência solitária, fatos reais. É imersão pura!

 

Casey espelha tudo isso e mais um pouco, se usando da arquitetura como contraste de suas emoções. Seu olhar sobre o mundo é um reflexo ao que esconde, do que tem medo de se deixar sentir. Afinal, ela crê que não pode ir muito além ao que existe em sua cidade e sua batalha é se conformar que pode. Aceitar que pode sim ver muito além daquilo.

 

Jin diz que ela pode ver além ao que existe na sua cidade. Que ela não tem que se conformar a um só ângulo da vida para existir. Para ser. Para perseguir o que deseja. Ele é a coragem que falta a ela, o que me faz comentar sobre o quanto este filme é mais sobre trejeitos, expressões, mudez e observações. É contemplação em puríssima essência. É sentir em meio ao caos interior.

 

Esse personagem sinaliza o norte final de Casey. O corte seco na dúvida de ir ou não ir. Ele é o empurrão para que ela se posicione para fora do seu ninho.

 

Haley tocou meu coração em Quase 18 (The Edge of Seventeen) e, com Columbus, ela ganhou uma nova fã. A atriz tonteia com a ruminação da sua personagem e, por meio dela, convence que a vida ainda pode ser transformadora. Mesmo quando a relação com os pais é baseada na inversão e na codependência emocional – o que é fácil dizer visto que este filme não pesa tanto nessa dramática.

 

O silêncio de Casey é belo tão quanto seu distanciamento de tudo que a compõe, entregando essa luta interna de ir ou de ficar. Acima de tudo, de se reivindicar e assim ser. Mesmo que relute, a personagem sabe que quer partir e é ao se dar voz que todas as cores intensas desse filme e sua arquitetura se fundem, rumo ao inesperado fim dessa inversão de papéis.

 

Eis uma história interessante. Com grandes pausas que podem não agradar os mais apressados. Mas, como toda decisão da vida, ruminamos e essa é a parte fundamental de Columbus. A busca final não é a liberdade da figura materna, embora esteja incutida. O objetivo é sair em busca de quem você é.

 

Há ceticismo sobre as possibilidades de se encontrar depois de tantas mentiras que contamos a nós mesmos e que nos faz nenhum favor a não ser o de retroceder às nossas vontades. Casey e Jin encontram um ponto concordante e escolhem seguir. Invertendo a narrativa do olhar de seus progenitores para apenas ser o que secretamente almejam e decidir como querem existir.

 

Columbus - Jin e Casey

 

“Obrigado por estar aqui.”

 

O roteiro trata com muita delicadeza o que não deixa de ser um tipo de inadequação que ritma a missão de nos sentirmos responsáveis demais pela família. Ao ponto de deixarmos de viver no processo. Columbus é mais trabalho visual e emocional, mas não deixa de entregar uma moral que muitos ainda lutam para conquistar. Tão quanto esperar que fique tudo bem no final.

 

Quem vive na inversão sabe que se abraça a missão de segurar os pais como se a vida dependesse disso. Porém, esquecemos do quanto esse papel pode ser igualmente solitário e, de quebra, não permitir que nossa verdadeira voz nasça. O que faz de Columbus o uníssono dessa missão de muitos filhos que mantêm a ordem como se fossem pais e das angústias que isso acarreta.

 

Este filme é poesia para os olhos e para o coração. Kogonada deu vida a algo tão artístico, tão sensorial, que torna essa experiência intensa em sua verdade. Arrisco até a dizer que só quem experiencia ou experienciou o impasse de Casey se reconhecerá nessa premissa. A vida de uma garota que acha que partir é egoísta quando, na verdade, ela só quer ter sua vida. Depois de tantos anos vivendo em função da mãe – e não de um jeito muito positivo.

 

É um trabalho cativante e que exige revisitas para capturar o que com certeza foi perdido em cada experiência. A história não exige nada a quem assiste, a não ser acompanhar duas vidas que se ajudam em um processo de dor particular. Inclusive, que se assemelham com o desejo de partir.

 

Sua composição é a base de muita contemplação. Contemplar as chances para vivenciar coisas novas. Para deixar uma máscara autoimposta. De estar em contato com o que se ama e traduzir a emoção que transpassa lá dentro, de acordo com a angústia que nos arrasta diariamente. É um filme tenro, de cumplicidade, de calmaria quando seu espírito é um completo caos.

 

Normalmente, filmes longos e sem tanto caos não me seguram, mas Columbus me fisgou de pronto. Ele pede atenção e um humor adequado para que você se encaixe nas perspectivas de cada um. Meramente porque é um roteiro que traz imersão. Que força um olhar por toda sua composição, desde o roteiro até sua fotografia. Tudo nele possui significância, até uma dança feita em frente a uma antiga escola, sem som algum, apenas movimentos que expressam a dor de Casey.

 

Columbus é minimalista e fascinante entre sua arquitetura e os laços familiares. É simétrico e ao mesmo tempo profundo. A fotografia é de encher os olhos, fatos reais. Cada tomada é uma composição (como uma cena filmada somente pelo espelho) de arte e cada diálogo é música aos ouvidos. Há um giro completo de como as pessoas podem afetar nossas vidas, positiva e negativamente. Jin e Casey se saíram como figuras únicas, mas as suas outras relações induzem a moral que é a busca de uma vida nova, independentemente da direção do leme. Sem se sentir mal pela sua escolha.

 

Meramente porque o controle da vida é nosso.

Stefs
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