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22/out

Olar, preciosos, como estão? A meta desta semana é tentar postar mais de um texto por dia graças ao fato de que estou de férias. Vamos acreditar que a tia aqui consegue!

 

A começar por este que faz parte da série de largados no arquivo das trevas do meu notebook. Um caso em que ponderei bastante sobre publicá-lo ou não, porque o contexto está fora da validade. Porém, as emoções resvaladas aqui ainda são concretas. Por isso, resolvi postá-lo.

 

Este texto não é uma resenha, mas um desabafo que condiz ao período em que eu escrevia o We Project. Pelas questões temporais, fiz adaptações e inseri novas ideias/linhas.

 

 

Falar de Orphan Black sempre me foge as palavras e acho que foi por isso que não investi em resenhas compactadas, como as de Bates Motel. É um universo que, particularmente, tive receio de cutucar porque considero tudo perfeitinho. Apesar das suas falhas de trama e de posicionamento de peruca, eu sempre fui muito feliz em acompanhá-la. De quebra, aprendi muito, especialmente porque eu escrevia um soft sci-fi no transcorrer de suas 4 temporadas (na S5 eu já estava livre).

 

No caso, o famigerado (e mencionado) We Project. Projeto de escrita que jaz em uma gaveta do meu escritório. Projeto que aguarda sua vez de conquistar a atenção da mamãe novamente.

 

Este texto nasceu depois de assistir a 4ª temporada de Orphan Black e não houve um episódio em que não me senti grata. Não só grata por John Fawcett e Graeme Manson terem criado este universo. Não só por Tatiana Maslany ter dado vida a personagens ricas e multifacetadas. Não só pelas storylines. O 4×10 é a exemplificação de um combo de sentimentos que implodiu essa gratidão, especialmente porque há várias tretas na ficção científica. Uma delas é ainda relutar a presença feminina neste espaço.

 

Sendo que foi uma mulher que basicamente fundou o gênero.

 

Soft sci-fi é chamado de sci-fi feminino porque é dito que mulher “não consegue” escrever hard sci-fi. Não com a mesma “precisão” e “amor” de um homem. Um machismo que atordoa outros gêneros, seja de série ou literário, como a mulher ter nascido para romance e nada mais que isso. Tudo bem que Orphan Black teve uma maioria masculina na sua sala de roteiristas, mas o que realmente pesou aqui foi uma mulher que representou outras no quesito storyline e que dominou os ganhos e as perdas de sua história.

 

Tudo isso na companhia de várias personagens em forma de clones e muito bem interpretadas por Maslany. Dessa forma, Orphan Black veio com o dito estereótipo do gênero e conseguiu ser muito aclamada. A ironia é que homens criaram esse universo soft e quem o levou de modo hard foi uma mulher.

 

Sou apaixonada por Orphan Black desde o início. Amei a 2ª temporada, mas é a 4ª que ocupa significativamente o pódio. Independentemente, depois da jornada completa, percebi que não desmereço o trabalho em sua completude. Meramente porque esse mundo de clones escancarou a tarefa que poucas séries mais compactadas conseguem realizar: todas as temporadas são pertinentes. Raramente algumas conquistam tal feito e, às vezes, nem nado nessa opinião de que uma temporada é mais fraca que a outra. Afinal, pode ter sido a intenção, algo que muda, por exemplo, com séries de 22 episódios.

 

Séries longas têm mais que a obrigação de dar conta da sua história, mas há muito filler no processo. Não são todas também, mas a grande maioria perde até mesmo o fio da meada.

 

Confesso que tratei a S3 desta série como filler. No fim, os clones masculinos foram pertinentes ao mostrar o outro lado da ciência. Afinal, somos X e Y, e Orphan Black não se eximiu dessa realidade.

 

Orphan Black - Beth

 

A S3 encontrou complementaridade na S4. Soma que acarretou o ápice na S5. Terceiros anos costumam ser difíceis, porque se trata do “ganhar de tempo”. O que ocorre muito em trilogias, em que o segundo ou o último livro não ganha o amor da maioria. No mundo das séries, o terceiro ano é o miolo, em que muito não pode ser entregue, mas alguma coisa precisa chegar ao telespectador. Muitos negam a S3 de Orphan Black, mas, antes do fim, ela fez sentido.

 

A S4 me conquistou graças ao encaixe entre passado e presente por meio da história de Beth. O ponto que entregou o começo do fim desta série. Foi o retrocesso que fez ver onde tudo começou e onde tudo deu errado. Nessa troca de tempo, os roteiristas mostraram que o 3º ano foi necessário para construir um vilão que subjugou ambos os sexos. Para mostrar que um grupo de pesquisas, junto com seu conselho, só queria lucrar com a clonagem.

 

O feminino sofreu com mais força visto que Beth, Sarah e as clones deram vida ao projeto NEDA. Um projeto que seguiram a todo custo, apesar do falecimento das “pacientes” – informação dada na S1. O fato delas não resistir trouxe a prova de que a ciência, seja de que tipo for, tem defeito e a corrida contra o tempo foi justamente para evitar que isso continuasse a ocorrer.

 

Assim, a cura se tornou parte vital de Orphan Black. A causa de parte da resolução da S5. Seja pelos vilões que queriam recuperar os danos do experimento, inspirados no falso conceito de Deus da ciência que pode tudo, ainda mais quando se trata de violar o corpo da mulher. Seja pela função de Sarah que queria manter as irmãs remanescentes vivas – com mais foco em Cosima -, criando uma irmandade a ser celebrada.

 

A brincadeira entre passado e presente muito me admira quando é bem feita. Trata-se de uma entrega em jogo de cenas que precisa manter seu ritmo e sua harmonia. Sem perder o fio da meada, como os próprios flash-forwards vistos em How to Get Away with Murder (e que saturaram ao ponto de apostarem no passado e não mais no futuro). Em seu 4º ano, Orphan Black se revelou como uma série com controle da sua narrativa, sendo os fãs os únicos impacientes.

 

Impaciência que nem chegou perto de abalar minhas estruturas. Eu experienciei a série diferentemente, ou seja, só a via quando a temporada se encerrava. E foi muito bom porque me mantive mais atenta aos detalhes (e isso influenciou no meu comportamento futuro de consumir tudo devagar).

 

Se havia amor em mim por Orphan Black esse amor se inflou na S4. Todas as discussões sobre o quanto se vai para obter o ser humano perfeito, o quanto clones são absolutamente supérfluas uma vez que a ciência avança e obtém novas formas de lucro, o equilíbrio entre os relacionamentos das clones e até de quem não pertence ao clube, trouxeram jogo de cintura para uma trama que foi complexa. Complexa porque tiveram que chegar muito perto da Genética atual – a série é contemporânea e não há mil anos no futuro – para não pagar mico. E a série pagou alguns micos, mas nem tudo é perfeito.

 

Não houve um só momento no decorrer da minha experiência com a série que não tenha jogado N termos no Google para saber mais. Além de instigar com o background das personagens, Orphan Black também intrigou com seu papo científico e é esse aspecto que me matou de amor na S4. Foi o mais hard que a série chegou graças ao viés de alteração de gene, da terapia genética, da inserção de um parasita nojento com o intento de mudar o DNA. O impossível se fez possível neste ano.

 

Orphan Black - Sarah e Helena

 

O peso maior que ficou em mim, ainda mais com o desfecho da S5, veio da presença das mulheres. Elas me fizeram chorar em vários episódios. Como também me fizeram sentir uma imensa angústia de não poder ajudá-las. E alegria por ter existido muitas pequenas vitórias e um final até que feliz.

 

Independentemente se era vilã ou mocinha no cerne, Maslany levou esse universo nas costas. Em contrapartida, não se pode esquecer das demais mulheres que passaram pelo elenco ou que ficaram por mais tempo. Maria Doyle Kennedy é uma delas, cujo último ato de heroísmo de sua personagem, Siobhan Sadler, me quebrou as pernas.

 

Orphan Black nos brindou com diferentes problemáticas, visando mulheres reféns de uma grande empresa. Em uma única série, várias personalidades femininas comandaram várias camadas desta história e foi impossível não se encontrar em alguma delas. As mulheres, mesmo com o rosto de Maslany, deixaram uma marca profunda em mim. Além disso, a lembrança boa de que devemos lutar pela nossa autonomia e, quem sabe, perdoar (Rachel?).

 

O impacto que a S4 fez na minha vida jamais ficará explícito neste post. Mas tudo que sinto é isso aqui: imensa gratidão por Orphan Black existir. Além da sua história, eis uma série que dá força a qualquer mulher de modo a fazê-la se sentir inspirada e confiante para desenvolver uma história nesse gênero. Para participar desse gênero. Para conversar sobre esse gênero.

 

Não menos importante: se identificar com a opressão vivida por essas personagens.

 

“Você me deu a vida. Eu sei que você pode tirá-la. Mas você não pode tirar minha humanidade.”

 

Em seu tempo de duração, Orphan Black deu uma galáxia para que todas as mulheres que curtem ficção científica se sentissem bem-vindas. Eu me senti muito bem-vinda, especialmente porque eu nunca sequer havia cogitado escrever qualquer tipo de sci-fi. A S4 meio que me deu vida para não desistir e para acreditar no que eu escrevia. Hoje, infelizmente, o projeto engavetou (e está finalizado), mas prometi revisitá-lo no fim deste ano – e melhor ainda com a mente fresca e cheia de ideias de reescrita.

 

Orphan Black ajudou a quebrar ainda mais as amarras sobre essa de “só os homens produzem sci-fi”. Só “os homens podem fazer sucesso com sci-fi”. Maslany se tornou não só a alma da história, mas a produtora de seu contexto a partir da S2. Ela deu ainda mais voz à premissa desta série e nunca escondeu em entrevistas a importância de destacar as várias facetas da mulher e do quanto a mulher pode navegar por esse gênero.

 

A série teve um time masculino de roteiristas, mas Maslany é a verdadeira razão deste material ter durado. Ela trouxe relevância a uma história que poderia ser ignorada justamente por ser contada do ponto de vista feminino. Por mais que neguem, a atriz contribuiu para a revolução feminina no sci-fi e como protagonista de um sci-fi. Quem escrevia a premissa da semana contou com uma grande estrela, a mulher que sempre será a verdadeira assinatura de Orphan Black. A série que conquistou extrema importância na cultura sci-fi.

 

Eu sinto agora com mais propriedade um imenso respeito por Orphan Black. Não que não sentisse antes, mas o impacto da S4 na minha vida foi demais. O impacto da S5 foi crucial também. Não sei se foi porque a assisti em mais um capítulo difícil da minha vida ou porque OB sempre teve seu jeito de me deixar inspirada. Seja como for, essa galáxia nasceu no mesmo ano em que comecei a ter coragem de escrever um livro, cujo enredo tem sua pitada de ficção científica. E sou grata!

 

Orphan Black - Cosima

 

A cada episódio da S4, eu me vi querendo criar meu sci-fi com mais mulheres. De forma a prezar amizade e lealdade. De ter vilãs agridoces, mas tão relevantes quanto às protagonistas. Há sim muito sci-fi para mulher importantíssimo, mas o que temos aqui é um exemplo muito acessível de que a mulher nesse gênero não é mais tabu. Nunca foi. É machismo puro mesmo.

 

Quando paro para pensar, eu meio que precisava de Orphan Black na minha vida. De maneira geral, independentemente de eu escrever ou não um soft sci-fi à época. Eu precisava de uma história dessas para ter um pouco mais de confiança no que colocava todo santo dia no Word. De ter um universo próximo com mulheres que me inspirassem a seguir. Com várias personagens que deixassem um rastro de aprendizado, méritos à Maslany que entregou várias facetas do feminino.

 

Pouco a pouco, Orphan Black se tornou um porto seguro. Um ninho de referências para mim. A começar pela coesão de contar sua história sem pressa. Todo capítulo era um preparo para algum estopim que poderia não fazer sentido na temporada, mas acabaria cobrado no futuro. De quebra, a série me ajudou um bocado a me encontrar no sci-fi.

 

Orphan Black - Helena

 

Eu não encontrei nada que confirmasse essa informação, mas classifico OB como soft sci-fi. Sua trama tem mais humanos que instrumentos tecnológicos e leis físicas. Há mais importância na troca de experiências pessoais, na análise de sentimentos, de valores e de morais. Embora explore o papo de clonagem, o que pega é a discussão social com relação a esse tópico + a falta de autoridade que a mulher tem sobre seu corpo + o ser tratado como propriedade. O lado soft é justamente isso, a ciência de um jeito mais “light”. O que o une ao hard é sempre a questão da crítica.

 

Toda ficção científica nasce para criticar algo social/político. O que difere é o seu desenvolvimento. Nunca me encontrei completamente no hard sci-fi e Orphan Black abriu mais meu caminho rumo ao soft sci-fi (junto com distopias e episódios de Doctor Who).

 

Orphan Black não é e nunca foi uma série ignorável. É uma das poucas que engloba várias mulheres em seu cerne e lhes dá significância e relevância. Todas as personagens são brilhantes à sua maneira, sendo clone ou não, e isso deixou meu coração bem quentinho.

 

Embora eu não seja fã de ciborgues, o que encanta em Orphan Black desde o Piloto é o tratar da humanidade. Em tempo real, a série fez muitos discutir, especialmente mulheres, sobre o patriarcado que se apoiou nas práticas do projeto NEDA. Pauta da atualidade, pois a mulher segue oprimida por esse sistema. O que mudou foi o viés na ficção.

 

Real ou não, ou por vezes exagerada, o que é discutido em Orphan Black rende o thriller, o drama, porque mexe com uma de várias realidades da mulher. O medo da mulher que, hoje, vocaliza em séries como The Handmaid’s Tale: não ter autoridade sobre si e ter que lutar, ao ponto de perder quase tudo, ou até morrer, para não ser mais roubada.

 

No caso de Orphan Blackpara não ser reduzida a um código de barras criado e administrado por uma entidade que controla sua existência.

 

Orphan Black - clone club

 

“Nós decidimos nosso destino de controlar nossos corpos e de amar quem escolhermos.”

 

As mulheres de Orphan Black entregaram seu último capítulo a base da luta. Uma jornada letal rumo à liberdade que foi furtada de cada clone desde a S1. Uma luta diária de várias mulheres.

 

Pode não soar compreensível para alguns de vocês, mas eu sou sugadora de inspirações. Eu preciso encontrá-las em qualquer coisa que aceito na minha vida. Desde pessoas até uma série. Ao aceitar Orphan Black, vi que teria uma fonte que me empurraria e que me daria possibilidades para o resto da vida. Por essas e outras que sou muito grata por esta série. Suas particularidades são essenciais e, para quem tem se aventurado em ficção científica, como eu, isso é muita coisa. Ainda mais para quem nunca se interessou sobre esse gênero, mas sempre o achou fascinante.

 

Eu jamais pensei que, por exemplo, Jogos Vorazes fosse um tipo de ficção científica na época do seu boom. Fato que transformou meu olhar quanto ao We Project. Orphan Black foi a cereja da minha trajetória, sempre regada do famoso nem sei o que estou fazendo, mas façamos até assim saber.

 

Retirando a poeira deste texto, me vi refletindo sobre o tempo em que o escrevi. Lembro que estava esticada em um colchão que usava sempre para ver as séries na televisão do quarto. Dava a sensação de acampamento e minhas cachorras ficavam mais à vontade comigo. O notebook ficava ao lado, acessível, para o caso de algum insight brotar. Quando os créditos do 4×10 subiram, essas palavras escapuliram de mim. Sem muito raciocínio e é engraçado ver que algumas coisas, que atualmente estão esmagadas em meu âmago, despertaram para o que afugentei em uma pasta.

 

Se deu vontade de rever Orphan Black? Deu sim. Deu vontade de passar por todo aquele sofrimento para no fim sentir essa gratidão científica.

 

Deposito meus mais sinceros agradecimentos por Orphan Black e que muito mais séries que pesam no poder feminino, inserido em sci-fi, nasçam no futuro.

 

#WeAreOne.

 

Imagens ☆ Reprodução 

Stefs
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