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25/out

Depois de 84 anos, tomei coragem de arrancar da minha estante este tal livrinho de capa azul que foi publicado em 2014 e publicado pela editora Rocco. O título já diz muita coisa, como uma variedade de 12 autores que escreveram 12 histórias (aka contos) para 12 Doutores. Seja em primeira ou em terceira pessoa. Essa escolha de leitura se deu pela necessidade de dar uma folga a minha sequência de leituras densas. Queria uma ficção para me distrair e estar na companhia de 12 Doutores me pareceu o ideal.

 

Sem contar que o livro estava encalhado na minha estante. Não que isso seja motivo de vergonha, ou uma grande novidade, mas, quando olhei para a capa, decidi tomar providências (isso porque tem outros títulos sobre Doctor Who esperando sua vez, SOS).

 

Não foi uma leitura tão fluida quanto gostaria e confesso que dei aquela abandonada básica para ler outro livro – e acabei em um revezamento. É fato que na companhia deste título meio que reafirmei o quanto eu gosto de soft sci-fi. Gosto muito do contato humano e foi justamente nos contos mais científicos que engasguei por dias.

 

Vira e mexe, Doctor Who é dito como soft sci-fi. A série em si mescla os dois e, normalmente, são os episódios mais hard que menos me envolvo.

 

A dificuldade de leitura também cabe ao fato de que não tenho um relacionamento tão aprofundado quanto gostaria com a Era Clássica. Vários Doutores foram estranhos para mim. Porém, isso serviu de porta para conhecê-los e criar minha própria visão de cada um deles. O que solidifica a parte mais legal deste livro que é brincar com a imaginação. Em alguns casos, nem pensei nos atores que deram vida ao Time Lord.

 

Se eu fosse definir este livro, seria um apunhado de fanfiction e você decide qual mais gostou no processo. Meramente porque o grupo de autores, que consta nomes consagrados como Eoin Colfer, Neil Gaiman e Holly Black, traz uma visão particular do Senhor do Tempo. Cada um ganhou a responsabilidade de criar uma viagem entre o tempo e o espaço frutífera e emocionante, e deu muito certo – apesar dos meus próprios perrengues.

 

Como a própria sinopse diz, são 12 interpretações diferentes do mesmo herói. Por serem tão particulares, escrever uma resenha completa não me pareceu justo. Sem contar que ficaria enorme. Então, optei por fazer uma lista com meus contos favoritos, seguindo a ordem de leitura.

 

 

O Segundo Doutor – A Cidade Sem Nome

 

Falou em Escócia, falou comigo mesma. Essa história me fez pensar a todo o momento nas chances de um crossover entre Doctor Who e Outlander – já que em Outlander também temos o papo de viagem no tempo, mas do ponto de vista feminino. Aqui, temos Jamie, o escocês que é companheiro do 2º Doutor e que os mete em uma cilada que outrora parecia apenas um incidente comum que pedia um tanto de empatia. Juntos, eles caem em uma Cidade Sem Nome, lar dos últimos Archons, presos na Grande Desolação.

 

Uma vez lá, acompanhamos uma história de furto em um contexto bem científico que envolve a menina TARDIS. Por meio dela, os Archons pretendem reconstruir seu Império. Rola uma reflexão sobre isolamento e solidão, algo que o Doutor, em qualquer reencarnação, compreende como ninguém. Há também o questionamento, bem do jeitinho DW, sobre até que ponto estamos dispostos a determinados sacrifícios e assim nos livrar do egoísmo.

 

O que me conquistou foi, justamente, às menções a Escócia. Tão quanto o resgate de alguns fragmentos dessa cultura. Destaco a música, a fonte de resolução desse conto, que ritmou as peripécias de dois personagens que acreditaram que não haveria como assegurar uma vitória.

 

A escrita de Michael Scott foi a responsável em me manter virando as páginas, ensandecida para chegar ao final (uma vitória porque se trata de um texto mais na pegada de hard sci-fi). A história é bem fluida, gostosinha e divertida, e que me apresentou um Doutor que eu não conhecia muito bem.

 

O Quarto Doutor – As Raízes do Mal

 

A história começa com um garotinho chamado Ven (diminutivo de Vendeta-Será-Nossa-Quando-O-Doutor-Morrer-Mil-Mortes-Agonizantes), mas não é ele o personagem principal. Quem assume esse papel é uma grande árvore que dita a diferença entre vingança e justiça. Inclusive, inspira essas emoções.

 

Enquanto a comunidade vive nesse impasse tão negativo, há burburinhos de que essa árvore, chamada Heligan, possui “uma mente”. Mente responsável pela “queda” do Doutor, que fica prestes a ocorrer em um universo que entrega o quanto essa “mesma mente” atrapalhou todo o desenvolvimento do lugar. De forma a deixar todos vivendo em um nível um tanto precário já que a harmonia faria todos se esquecer do objetivo central.

 

No caso, se vingar do Doutor para enfim haver justiça. O que firma o clima de pagar na mesma moeda em reflexo ao status atual da comunidade. Claro que tudo sai pela culatra porque o sagaz Time Lord desvenda o que há por detrás dessa árvore.

 

Muitas coisas divertidas acontecem nesse conto, como a menção do 11º Doutor. Os nomes das pessoas são grandes sacadas que roubam o riso. Gostei bastante do contexto, bem próximo ao que mais gosto em Doctor Who, cuja moral é de que devemos combater aqueles que só querem nos fazer mal. Além disso, saber identificar a diferença entre justiça e vingança.

 

O título faz muito jus sobre o que plantamos e o que colhemos, uma sacada muito boa de Philip Reeve. O resumo da questão de se criar algo que pode ser maravilhoso para várias pessoas, mas acaba sendo usufruída por todos os motivos errados. Heligan acabou sendo utilizada para o mal e o mal foi recolhido. Ao menos, até o Doutor chegar.

 

E eu gosto muito desse Doutor, apesar de saber consideravelmente muito pouco dele.

 

O Quinto Doutor – Na Ponta da Língua

 

“Tudo é possível. O que, no final das contas, é toda a verdade que se precisa.”

 

Essa é uma história que se tornou muito querida antes mesmo de eu finalizá-la. A trama transcorre no período da Segunda Guerra Mundial, época que vive Nettie, uma menina negra, e Jonny um judeu com sobrenome alemão – descrições extremamente necessárias visto o contexto. Ambos introduzem a trama sobre os Contadores da Verdade, uma tecnologia que diz o óbvio: a verdade. Basta prendê-lo embaixo da língua, de maneira a cobrir o queixo, para que tudo que se passa na sua mente seja dito a qualquer pessoa. A qualquer momento. Sem filtro. E com certo ódio.

 

A proposta dos Contadores da Verdade tem seu tom muito atual (e bota atual nisso!). A começar pela sua criação, assinada pela família Acklin – que, lógico, não é humana. Cada membro é da raça Dipthodat, cuja característica principal é a xenofobia. Eles semeiam a discórdia entre os locais e se alimentam dessa energia negativa.

 

Por meio dessa tecnologia, que ganhou vida por meio de outra raça que acabou escravizada pelos Dipthodat, as pessoas são convencidas de que dizer a verdade, nada mais que a verdade, como faz o grupo de meninas malvadas que não se dão com os losers dessa cidadezinha do Maine, é uma boa ideia. Não é à toa que, ao longo da história, os vilões sempre dizem: “você não pode argumentar contra a verdade. Pode?”. Algo que cria sua verossimilhança, especialmente sobre o racismo. Dane-se o respeito ao próximo, né?

 

A história também me tocou por ter trazido o tom de procura do 5º Doutor por uma nova companhia de viagens. Não há muito dele nessa história, apenas o peso dos Contadores da Verdade. Ainda assim, esse conto, escrito por Patrick Ness, é envolvente. Empolgante. Faz pensar sobre o quanto vamos longe para empurrar nossas próprias verdades.

 

O Sétimo Doutor – O Efeito de Propagação

 

Rusty

 

“Ace, nós vivemos algo que achei que nunca poderia acontecer em linha do tempo alguma. Daleks pacíficos que eram uma força do bem. Talvez, só talvez, isso aconteça neste universo também, a seu tempo.”

 

Quando se tem Daleks, contem comigo pra tudo!

 

Esse conto, escrito por Malorie Blackman, traz um mundo em que os Daleks são bons. Na hora me lembrei de Rusty, aquele que também fez o favor de chocar o 12º Doutor. Saudade!

 

Nessa realidade, a turma do mal é a turma do bem, o que traz à tona as emoções negativas do Time Lord, que desconfia até o fim desse comportamento exemplar e empático. Um comportamento que tem um compasso moral chamado Tulana, jovenzinha que faz os questionamentos difíceis e ganha respostas complicadas. Quando o Doutor e ela passam a conviver juntos, há, basicamente, uma discussão de que o mal uma hora pode se tornar o bem, embora o tom seja irrealístico.

 

Irrealístico para o Doutor, claro.

 

Não há nada dos Daleks militaristas malignos nesse conto e Skaro é o centro universal da civilização, da filosofia, da democracia e da arte. Um sonho de princesa que o Doutor refuta com todas as forças. E quem não refutaria, né?

 

Ace, a companheira, também faz questionamentos difíceis a um Senhor do Tempo que não afasta seu asco pelos Daleks diante do que vê. O alienígena não consegue ser imparcial e com toda razão. A todo o momento, o Doutor duvida, faz críticas, age de um modo passivo-agressivo que incita Tulana a ser lógica com relação à realidade que ocupam. Repetidas vezes se ouve que os “saleiros” não são ruins e há um forte debate sobre arrogância e elitismo diante de um mundo que funciona.

 

Querendo ou não, um erro da TARDIS amenizou os outrora inimigos do alienígena e de várias civilizações. E daí que me vi irritada com o Doutor, como manda a praxe, graças à sua síndrome de Deus. Além disso, sua ausência de maleabilidade uma vez cego em suas questões. Mas logo passa…

 

Parece fácil deixar tudo como está. É atraente. Porém, a lição proposta por esse conto é não atropelar o curso das coisas. Inclusive, dá luz a importância de reescrever a história, afirmação que é um dos nervos de Doctor Who e que desafia o 7º Doutor ao longo dessa esquisita jornada. Mesmo consciente da razão sobre a existência desses Daleks, ele não pensa duas vezes em realinhar as linhas do tempo e do espaço.

 

Mas é tentador manter tudo como está e o Doutor chega muito perto de acatar esse desejo. Afinal, todas as atrocidades dos Daleks deixaram de existir. Houve uma transformação completa dos inimigos que sempre quiseram o bem exclusivo de seu grupo. Retornar ao que era antes não soa como uma solução sábia. Não quando a TARDIS facilitou todo o processo.

 

Em contrapartida, o Doutor é íntegro e sabe que as linhas do tempo precisam ser respeitadas. Ver um mundo em que os Daleks melhoraram resulta na moral de que um dia isso será possível. Resulta no agridoce de uma esperança que, sabemos, sempre morre. Mas, talvez, isso possa rolar. Dentro do seu tempo. É o que esse alienígena deixa de reflexão.

 

(e nem preciso dizer que essa é minha história number 1).

 

O Décimo Doutor – O Mistério da Cabana Assombrada

 

Martha Jones

 

Primeiramente, gostei da escolha da companion. Ela mesma, Martha Jones. A rainha injustiçada da linha do tempo do 10º Doutor, mas muito amada nesse meu coração. Nossa, eu fiquei muito contente!

 

Segundamente, eu amei a ideia de Derek Landy, que criou um universo portátil em que personagens da ficção são reais. Uma criação possível a base das nossas histórias favoritas, que transforma o que parece ser uma ação do nosso inconsciente, e só consegui imaginar a zona que meu universo portátil seria. Ainda mais porque a própria geminiana que tem uma sequência de favoritos interminável!

 

Não há muito o que dizer sobre essa história. Não há complexidade nela, nem muita pegada sci-fi. Se a premissa se tornasse um roteiro, com certeza entraria para a fila que chamam de “mais fracos da temporada” – e que, com certeza, eu amaria de paixão e é por isso que consta na minha listinha, buhu!

 

É um conto bem bonitinho, se não fosse a grande tramoia por detrás de um personagem dos Encrenqueiros. O livro preferido de Martha que, automaticamente, a coloca como a responsável dessa trama. Nisso, companion e Doutor nos levam para a reflexão do quanto usamos a ficção para fugir da realidade. Nesse caso, não é nada bom, pois o imaginário acaba por dar energia ao vilão que impulsiona essa válvula de escape.

 

O Décimo Primeiro Doutor – Hora Nenhuma

 

Neil Gaiman escreveu algumas histórias ao longo da jornada do 11º Doutor e aqui eis outra que adoraria assistir na telinha. A companion é Amy Pond e, juntos, ambos retornam para 1984, ano em que coisas estranhas começam a acontecer graças a um grupo de supostas pessoas que usam máscaras. Pessoas que prometem comprar sua casa à vista e perguntam estranhamente as horas.

 

E é essa pergunta que define toda a história.

 

A mão criativa de Gaiman penetra no imaginário sem a menor dificuldade. Ainda mais quando as nuances do terror perpetuam sua escrita. Ao longo da leitura, as máscaras utilizadas me remeteram ao filme Os Estranhos, e penso que teria pesadelos se essa história pertencesse a um livro exclusivo.

 

Está aí um homem que me poupa palavras porque ele pode contar comigo sempre.

 

Extra: O Nono Doutor – A Besta da Babilônia

 

Eu não curti esse conto, mas preciso fazer uma ressalva. No caso, o fato de que a premissa, assinada por Charlie Higson, transcorre no ínterim de tempo que o 9º Doutor deixa Rose. Mais precisamente no Piloto da Era Moderna, no finalzinho em que ele retorna para insistir por sua companhia. Gostei muito, mas muito mesmo dessa sacada, que só é apresentada na conclusão.

 

A demonstração de que o tempo da Terra e da TARDIS é totalmente diferente.

 

Opinião geral

 

12th Doctor

 

Assim como a experiência com a série, houve uns tropeços, mas fiquei satisfeita com a leitura. Apesar de não ter falado de todas as histórias, acredito que essa experiência rende a famosa questão de gosto. E meu gosto normalmente cai nas premissas consideradas mais fracas. Sendo que, na verdade, a pegada é muito mais inspirada no soft sci-fi. Eu me encontro mais nesses contextos.

 

Eu demorei mais que o esperado para finalizá-lo. O que me fez compreender novamente o que me distancia de episódios mais hard sci-fi de Doctor Who. Eu não encontro tanta emoção. Posso gostar, mas não me lembrarei deles com tanto zelo justamente pela falta de conexão.

 

Os que listei acima pendem para o lado soft, com todas as suas implicações humanas e morais que visam uma sensibilidade que afasta toda a lógica científica que algumas histórias agregaram (e não me cativaram). Mas toda ficção científica não é isso? É sim, mas eu gosto de mais humanos e menos aparatos tecnológicos. E essa é uma diferença essencial nos subgêneros do sci-fi.

 

Eu recomendo este livro, especialmente para quem nunca teve contato com Doctor Who. Já prometi ser mais dedicada com o arco clássico e espero cumprir em algum futuro próximo, pois agora eu sei com quais Doutores eu posso começar essa experiência. Assim, eu não consegui avançar além do 1º Doutor e fragmentos aleatórios dos outros.

 

O que me faz até dizer também que rolou uma dificuldade de identificação com os Doutores Clássicos. Já da Era Moderna, não consegui me encontrar com o 12º. E o 12º era o que eu mais queria identificação, pois meu favorito. Meu próprio spirit animal. Infelizmente, não senti esse Time Lord no texto de Holly Black, e deve ter sido por causa da caracterização recente visto que Capaldi nem tinha afrouxado os sapatos do personagem ainda.

 

Seja como for, valeu a experiência. Valeu por me lembrar dos Doutores que já foram. E do quanto amo Doctor Who (apesar de não ter começado a nova temporada ainda e ter abandonado as resenhas). Tenho saudosismo pelo 11º porque foi ele quem me trouxe para esse universo e o rosto risinho de Matt Smith me acompanhou por dias e mais dias.

 

Resta esperar uma nova versão com a 13ª Doutora e uma história mais caracterizada para o 12º Doutor.

 

PS: a arte do livro é muito lindinha. Todas as histórias contam com uma capa de introdução, por assim dizer, com direito a uma ilustração de cada Doutor, título, autor e tradutor.

 

Boa leitura, preciosos!

 

 

Para anotar

 

Título: Doctor Who: 12 Doutores, 12 Histórias
Vários autores: Holly Black, Neil Gaiman, Derek Landy, Charlie Higson, Alex Scarrow, Malorie Blackman, Richelle Mead, Patrick Ness, Philip Reeve, Marcus Sedwick, Michael Scott, Eoin Colfer
Gênero: Ficção Científica
Editora: Rocco (Fantástica Rocco)

 

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Stefs
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