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13/out

Eis aqui uma série que ainda não acredito que foi cancelada: Sweet/Vicious. À época do seu lançamento, ouvi muito burburinho do quanto à série era boa e tudo mais, mas, por eu ter fugido do radar do mundo em 2016, obviamente que não acabei assistindo. Como devem lembrar, esse mencionado ano foi meu ano de bode (olha só quem aprendeu a ser gentil com um dos piores anos da sua vida) e não vi nada além das séries que resenhava.

 

Pelo que li por aí, eis uma grande perda para o entretenimento adolescente/jovem adulto e concordo totalmente. Esta série é uma preciosidade por ter abordado com extrema competência o estupro, a importância de denunciar, as marcas que ficam e a influência do apoio feminino nesses casos. Considerando que Sweet/Vicious conversou com a faixa etária mais jovem, sem dúvidas o tema seguiria sendo uma inspiração e contribuiria, em um tempo tão propício, para a quebra do silêncio. Afinal, sua premissa é um tabu. Pior ainda, ainda é dito como culpa da vítima.

 

A verdade é que eu não vi Sweet/Vicious em um bom momento. Basicamente, foi no ínterim de tempo em que maratonava a 1ª temporada de The Bold Type. Com um finale daquele, acabei inspirada a ver esta série e sigo espantada por ter sido conquistada ao mesmo tempo que me via mergulhada em emoções desconexas. É fato que quando pego algo para ler/ver em um humor duvidoso, esse humor duvidoso impregna. Não foi o caso, embora eu realmente não estivesse com o juízo no lugar – o que piorou um bocado a minha experiência devido aos gatilhos que existem neste universo.

 

Vai entender! Quando o mood é autossabotagem, nem a Deusa explica, gente.

 

Enfim. Além dos comentários positivos que passaram embaixo do meu nariz, sempre tive interesse de ver Sweet/Vicious graças à quantidade de gifs que existem no Tumblr. Porém, sempre temi a sua abordagem. Eu precisava aquecer o espírito e cá estou eu para contar o resultado desta experiência.

 

Há spoilers neste texto, ok? Eu não sei trabalhar sem spoiler. 

 

Sweet/Vicious - Piloto

 

Sweet/Vicious foi uma série da MTV criada por Jennifer Kaytin Robinson e lançada em 20‎16. Em 10 episódios, regados de humor negro, conhecemos Jules e Ophelia, que lutam contra um dos maiores medos das mulheres: o estupro. Neste caso, o estupro em ambiente universitário, mais conhecido como date rape. Só com esse combo, me pergunto como é que cheguei ao fim desta série. Fatos reais‎!

 

Jules é o norte da série. Ela tem uma identidade secreta que a faz ser chamada de Vigilante nos arredores do campus da Universidade Darlington. O motivo? Aqui vai: durante a noite, ela faz justiça a todas as garotas que foram estupradas ou sofreram algum tipo de abuso. E, obviamente, ninguém sabe da sua identidade, o que engata o tom de história de Origem.

 

No Piloto, vemos um pouco da sua vida dual tanto dentro quanto fora do uniforme preto de super-heroína. O que descobrimos nesse processo é uma protagonista que ninguém espera que embarque em uma vingança e incite algum tipo de violência – contra os estupradores do campus. A começar por ser mulher. Depois, por pertencer a uma sisterhood fofíssima. Seu biótipo soa como uma escolha proposital, pois, ao olhá-la, é fácil tachá-la de “jovem fútil que só quer ser popular e nota A+”.

 

Resumidamente: Jules é uma menina muito fofa, dedicada e leal. Jamais que a escolheriam em primeiro lugar como a identidade secreta da Vigilante.

 

Só que, em meio a essas camadas de garota aparentemente comum, há um segredo que a motivou a ser essa tal de Vigilante. E nem é preciso pensar muito para saber o que seria esse segredo. Basta um olhar peculiar à sua constante inadequação em alguns pontos essenciais da trama para cair na real.

 

Os primeiros minutos do Piloto traz Jules em ação e o que senti foi um misto de arrepio e de risinho tímido de quem está adorando a pancadaria contra um estuprador. Um mês salta, as emoções acalmam, e daí conhecemos outra integrante essencial dessa história: Ophelia. Aquela que fica meio obcecada em descobrir quem é essa Vigilante – porque não tem mais nada para fazer.

 

Sweet/Vicious - Harris e Ophelia

 

Ophelia é o oposto de Jules. Ela é totalmente desinteressada e desocupada quanto à vida universitária. Em uma breve conversa com seu BFF Harris, fica evidente que essa moça de lindos cabelos coloridos não tem propósito a não ser estar na vida a passeio. Seu cotidiano não tem nada de interessante e seu único risco é vender maconha – sua adrenalina cotidiana e que só dá dor de cabeça. Caçar a Vigilante se saiu então como nova meta contra o tédio.

 

Esses mundos distantes se tornam o mesmo em uma nova noite de vingança. Jules está em ação e, na confusão, seu colar se perde. Item que se torna a ponta solta que faz esses universos colidirem graças ao empenho de Ophelia em descobrir quem é a dona. O que resulta na emenda dessa história de Origem, pois vemos a pessoa mundana, totalmente atraída por um heroísmo, ensandecida para saber quem é a super-heroína por detrás da máscara.

 

Não demora muito para o colar entregar sua verdadeira dona e aí temos o primeiro lance do conflito. No caso, uni-las em nome de um bem comum. Ophelia cerca a descoberta Vigilante de todo jeito e, a princípio, rola uma invasão de espaço que é extremamente desconfortável. O que cria estresse para Jules que quer preservar sua identidade. De quebra, não quer ajuda.

 

Só que Ophelia tem seu superpoder: ela é uma hacker. Com isso, a personagem é capaz de rastrear os casos de estupro e assim seguir Jules.

 

É evidente que Ophelia quer ser parte desse contexto e, por isso, não hesita em seguir Jules em outra noite de vingança. Uma noite que resulta em tragédia. O que era para ser mais uma ação da Vigilante, o job termina em morte acidental. Um resultado que eu não engoli muito bem, mas seguimos.

 

A confusão é instalada, pois ambas encobrem essa morte. Mas, como nada disso pode ser esquecido, outras vidas se interseccionam entre elas. O que resulta no crescimento do conflito em torno de suas identidades e, claro, do crime que cometeram mesmo sem querer. Um crime que pesa mais em Jules.

 

Meramente porque seu interesse amoroso tem a ver com a pessoa que morreu. Dessa forma, Tyler se sai como peso na consciência de Jules, além de ter outra função que comento mais lá embaixo deste texto. E, quem morreu, serve de aviso para que esse papo de Vigilante chegue ao fim.

 

A morte acidental tinha tudo para ser um alerta para Jules visto que Ophelia, antes disso rolar, chama a atenção da Vigilante sobre essa coisa de se vingar. Sobre essa questão de partir para a violência quando basta denunciar.  Meramente porque não deixa de ser o popular “justiça com as próprias mãos”, o que não é indicado. Independentemente do caso. Essa situação surpresa é desesperadora e sinaliza para que essa missão seja abandonada.

 

Por outro lado, Ophelia sabe que o papel de Jules é relevante e fica ao lado dela depois desse incidente. Eis que uma linda amizade se inicia.

 

A quem pergunte, Jules se usa de aparelhos de choque e de artes marciais. Ela assusta, dá uns chutes e deixa um aviso. A intenção nunca é matar,  mas, como a personagem tem seus gatilhos quanto ao assunto que tenta vingar, suas emoções entram no meio. E é quando se abre chance para estragos maiores.

 

Depois disso, obviamente que a missão não é abandonada. Como Ophelia mesma diz depois desse desdobramento, visto que Jules quer largar tudo de mão, é que a universidade precisa do seu Batman. Fato que dá sequência à storyline que passa a nortear não apenas uma, mas duas Vigilantes.

 

Uma vez unidas, o drama sobre estupro/estupradores entra visceralmente.

 

Sweet/Vicious - Jules e Ophelia

 

Conforme os episódios passam, essas jovens se tornam grandes amigas. Jules sabe que tem plenas condições de seguir com seu papel sozinha, motivada pelo que ocorreu com ela, mas eis que entra a necessidade de dividir o fardo. Principalmente porque essa jovem não tratou o seu estupro e ainda pisa em gatilhos. O que faz de Ophelia a aliada que reconhece que essas mulheres precisam de ajuda. No caso de Sweet/Vicious, serem vingadas/justiçadas.

 

Ophelia é a âncora, especialmente porque não sofreu nenhum tipo de abuso.

 

O peso da série gira em torno das emoções que Jules carrega sobre o que lhe ocorreu e que pincela a trama até compreendermos sua motivação. Ao longo de cada episódio, vemos as inseguranças, os medos e os sentimentos dessa Vigilante exacerbarem em compassos precisos, que evoluem o desenvolvimento do conflito e do papel das Vigilantes. De início, tudo é maneiro, mas a trama ruma perfeitamente para a perda do controle. Para a moral disso. O que gera instantes de muitos auges de fazer chorar.

 

No grito, vemos que mais uma mulher se tornou estatística e não encontrou justiça no sistema. Por causa disso, ela teve que engolir o que lhe ocorreu enquanto seu estuprador segue livre. A história da vingadora Jules começa a perder o senso quando a mesma afunda na sua segunda identidade e passa a ser atormentada pelo seu estuprador. Seus nervos acabam sendo, literalmente, descontados naqueles que machucaram outras jovens. Em nível dito anormal.

 

Com essa indiferença do sistema, que promete justiça, mas não para as vítimas do campus, Jules abraçou o caos e cedeu outro modo de justiça. A universidade é clara no posicionamento de proteger o estuprador e minimiza as questões de estupro por ter medo de se queimar porque os caras brilhantes sustentam a instituição. Informação repetida várias vezes no desenrolar da série e que emperra o processo. Desde a denúncia até o interrogatório.

 

Essa personagem traz toda a bagagem da vítima. É nela que vemos a raiva por ter tido sua vida dizimada. A decepção por ter sido desacreditada. A solidão porque ninguém mais acreditaria na sua versão dos fatos caso entrasse com uma nova denúncia. Jules carrega seu próprio fardo e o desconta ao lutar contra o silêncio que protege os estupradores. Ao dar voz a outras vítimas.

 

Com Ophelia, ela traz aprendizado em meio à angústia com base em casos que meio que se tornam semanais. Trabalho noturno que conflita com suas vidas cotidianas e que começa a altear as sobrancelhas das pessoas próximas. Principalmente da parte de Jules que se ausenta das tarefas da sisterhood e some das vistas de Kennedy, a melhor amiga, para seguir trazendo a vingança que outras jovens não conquistaram no campus. Jovens que são seu reflexo.

 

Sweet/Vicious - Vigilantes

 

A cada caso de estupro, mais sobre o tratamento da vítima é dado, transformando esta série em aula sobre o tema. Além do estupro, há o esboçar das consequências, como meninas que largam os estudos pela vergonha. Meninas que não conseguem mais ter um cotidiano normal graças à ausência de condições psicológicas e à noção de que seus estupradores estão ali.

 

Há também as denúncias que não vão até o fim porque “sempre é culpa da vítima”. O real caroço desta série e que Jules entrega perfeitamente. Um viés que Sweet/Vicious fortalece ao escancarar o quanto os poderosos acobertam tais casos. Os garotos são fichados por “suposições”, pois o drástico fica no colo das garotas. Universitárias que desabafam o que lhes aconteceu em uma parede no banheiro feminino.

 

O fato de Jules ficar na universidade e intentar sua vingança geram força. Foi inspiração para mim da mesma forma que é inspiração para Ophelia. Suas ações geram resistência e a demonstração de que esses casos não devem sair impunes. Por meio dela, todo caso é lembrado e o estuprador ameaçado.

 

Em meio a personagens carismáticas e a premissa estarrecedora, Sweet/Vicious tem uma única ferida: o descaso do estupro em ambiente universitário. Viés que não é proposital, pois se trata de uma realidade. Algo que me faz lembrar o documentário The Hunting Ground, que abordou o tema e contou com a trilha assinada pela Lady Gaga.

 

Por se fortalecer nesse descaso, não garantindo fórmulas e resoluções surreais, Sweet/Vicious pega a ferida e a torce. E o resultado atinge vários outros âmbitos, como a reflexão de outros estupros em outros ambientes. Apesar da série tratar uma realidade gringa, é possível encaixá-la na nossa.

 

Jules poderia ser qualquer amiga nossa que passa por isso em silêncio. Acreditando que não tem com quem contar. Mudando drasticamente para afugentar o que lhe ocorreu. E o mesmo rola com várias mulheres diariamente. Denunciar, a personagem denunciou, mas abandonou qualquer tentativa de aprofundar a queixa porque foi desacreditada. Ela teve que engolir o slut-shaming que a figurou como a culpada da sua própria situação. E muitas passam por isso enquanto os estupradores dormem como um bebê.

 

Embora os casos de estupro não sejam explícitos, salvo de Jules que tem um tantinho mais de detalhes por ser o impacto da premissa, há um embalo fortíssimo do quanto esse tipo de violência contra a mulher é desprezado. Do quanto a cultura do estupro existe. Do quanto mulheres ainda são vistas como causadoras desse cenário. É desamparo latente que Sweet/Vicious entrega em uma abordagem que não perde as características de ter sido roteirizada para TV. Há um tom didático. Pessoal. Tirando a violência, suas heroínas são a fonte de esperança que torna todo seu contexto impregnante.

 

Não menos importante: verdadeiro. Jules é a única arma que o campus tem para combater o estupro. Não é o suficiente porque se trata de um crime, mas a mensagem da série é clara: mulheres se apoiem!

 

O tratamento do estupro

 

Sweet/Vicious - Parede

 

 

“Eu apenas deixei meu corpo e o observei. Queria poder fazer isso com ele. Queria poder destruir o mundo dele como ele fez com o meu.”

 

O que vocês precisam saber: Sweet/Vicious se apoia com afinco na violência corporal. Desde o estupro (mais na questão de abordagem do tema e das vítimas não serem ouvidas) até as atitudes das Vigilantes em se vingar dos estupradores. Um combo que faz nossas emoções oscilar e atingir picos desconexos. Inclusive, se perder na razão da justiça com as próprias mãos.

 

Por isso: se você não se sente confortável com nenhum desses pontos, indico não assistir. Minha experiência com o assunto definitivamente não é a mesma que a de muita gente. Portanto, quem passou por isso ou por algum tipo de abuso, por favor, chequem as informações antes. Cuidem-se ok?

 

O estupro em Sweet/Vicious é o mencionado date rape e que normalmente acontece da parte de alguém conhecido. Neste caso, homens. É um tipo prevalente em campus universitários, especialmente em festas em que as meninas estão alcoolizadas ou têm suas bebidas batizadas com algum tipo de droga. A própria história de Jules que, além de passar por isso, traz para a trama a verdade de pouco auxílio e apoio, fatores que interpelam a recuperação. Nisso, a vítima é acompanhada pela culpa e pelo sentimento de humilhação, o que impede o seguimento da denúncia. Ou a própria denúncia.

 

O papel de Jules e de Ophelia na série é aquele que nasce quando dizemos que queremos ver os estupradores pagando propriamente pelo seu crime. Um reflexo da consciência de muitas mulheres que sabe que a justiça não está do nosso lado. Com sorte, só quando pressionamos. Pela ausência de uma solução, há aquele instinto de resolver por conta própria e esse é o pilar essencial de uma jovem adulta que quer garantir a segurança do campus. Mesmo que seja um tanto de trás pra frente visto que Jules usa da sua experiência para ir atrás de acusados que saíram ilesos de qualquer acusação.

 

Como aconteceu com o seu estuprador.

 

Jules luta contra o patriarcado na companhia da versátil Ophelia. Um pilar que defende o homem. A universidade se sai como esse teto de vidro que protege seus garotos de ouro já que são eles que sustentam essa instituição. Em contrapartida, há as Vigilantes que não deixam estupradores passarem.

 

A justiça se encontra nas mãos das próprias Vigilantes e não deixa de ser um tanto absurdo. Desde Ophelia ter acesso a informações com extrema facilidade até o fato delas saírem na calada da noite sem pensar nas consequências (o que rola mais tarde, como mencionei ao longo deste texto). É um tanto estarrecedor, mas, ao menos da minha parte, não foi tão difícil digerir esse aspecto. Justamente porque há um motivo por detrás dessa ação.

 

Jules inicia seu papel de heroína na calada da noite para avisar aos estupradores que não repitam o crime e não houve um instante em que não temi por ela. Já que não tem justiça, então, vamos no susto mesmo, ela decidiu. Em contrapartida, suas emoções escalam, o ódio a cega, o que a norteia a vários picos de descontrole. Tudo motivado pelo fato de que seu caso não foi seguido adiante. De quebra, ela acabou sendo culpada pelo ocorrido.

 

Por ter sido desacreditada, Jules se isolou e desistiu de se cuidar.

 

Mas será que é correto partir para a famosa justiça com as próprias mãos? Esse é um dos questionamentos que Sweet/Vicious levanta porque é a inspiração de Jules para ser Vigilante. É a inspiração que uma parte da gente acredita ser a melhor solução até sermos chamados à realidade. Em cada golpe desferido pela Vigilante, esse questionamento a acompanha e nos acompanha.

 

Há sim prazer em ver cada estuprador sendo socado, mas será que precisamos chegar a esse ponto para provar que se é vítima? Não houve um só instante em que não pensei sobre isso. Eu bem tenho essa sede de vingança em várias partes de mim, mas não sei se cederia à adrenalina do ato.

 

Poderia dizer que a oportunidade se faz necessária, mas, quando penso no que me ocorreu (que não foi estupro), eu sinto um medo terrível disso se repetir de novo. Eu fugiria da presença de quem de certa forma me violou. É o que tenho certo na mente – e não precisarei mais correr esse risco porque eu soube, muitos anos atrás, que o fdp morreu. Espero que esteja no inferno!

 

Sweet/Vicious - Nate

 

O inferno de Jules se chama Nate. A razão que a torna uma Vigilante. Ele representa o perfil branco e privilegiado, a grande estrela da universidade que ninguém ousa relar. Jamais que um garoto com tudo na mão cometeria tal crime, não é mesmo? Fake. O personagem vem com a proposta de combater a dita verdade de que ser rico e bem educado são sinônimos de que tal homem jamais seria um estuprador. Contudo, ele é e Sweet/Vicious aperta essa realidade com gosto.

 

Há umas cenas desse personagem que você desacredita (mas não há surpresa). A oratória desse cidadão, desbravando seus privilégios, garantindo que garotas pedem para ser estupradas… Honestamente. Haja sangue de barata porque eu mesma quis socá-lo com gosto.

 

Nate é o efeito desencadeador sobre o instante em que o estupro de Jules acontece e o que rola depois dele. Esse jovem faz entender que o processo foi consentido, mesmo diante das recusas de uma garota bêbada. Ele narra sua vitória aos amigos que o mimam com mais estrelas e inflam seu ego. Ele tem um nome que o protege e sua reputação o deixa ileso. Ele é a manipulação que encolhe a vítima e a deixa desamparada. Ele é a escada de descrença e da importância de denúncia.

 

Por ele representar o estupro central de Sweet/Vicious, acompanhar como tudo se desenrola é interessante ao mesmo tempo que é visceral. O personagem foi criado para ser o polo negativo e assim ser caminho do desamparo que Jules sente nas duas vezes que o denuncia. Ele é completo, desde ser o atleta querido a ser namorado de Kennedy. Não tem como contestar esse “príncipe” e cada episódio tem seu jeito de nos convencer de que ele sairá ileso.

 

Há o episódio de esclarecimento sobre esse estupro e é quando essa questão de vingança vem com força total. É quando conhecemos a emoção principal de Jules. O que a motiva a socar os estupradores do campus com gosto e pedir o apoio de quem assiste. Principalmente quando vemos que sua história não é a única ilustração desse assunto. Há muitas outras e o instante de impacto vem de uma parede do banheiro feminino que expressa as denúncias. Nomes dos caras que levam as Vigilantes rumo aos estupradores – e que quebra ainda mais uma Jules angustiada.

 

Além disso, do grupo de ajuda que Jules deixa para trás.

 

Sweet-Vicious - Kennedy, Jules e Nate

 

Esse sujeito não “se vê como estuprador”, mas como o cara que se dá bem com garotas que querem transar com ele. Especialmente as que dizem não. Jules é mais uma que estava supostamente a fim e depois resolveu reclamar assim que o “ato foi consumido”. Não havia sinais da parte dela. Ele foi pra cima. Ela estava vulnerável.

 

Jules representou apenas uma amizade por andar no mesmo círculo que ele. E, claro, pelo cara ser namorado da sua melhor amiga. Não havia interesse, nem platônico. Nos flashbacks do dia do estupro, vemos que ambos se tratam amistosamente, mas, do ponto de vista dele, ela lhe dava mole. Obviamente que esse cidadão se usa disso, especialmente quando sai na frente para relatar seu ponto de vista para Kennedy.

 

O que temos aqui é o típico caso de um cara que diz que viu sinais de interesse e os endossa para uma centena de amigos sem uma gota de critério (ou quase). Daí caras como Nate se sentem no direito de impulsionar o que não existe e de tagarelar mentiras. Ele cria sua dita própria verdade que serve para justificar o que fez e, de quebra, manipular a garota que tem uma lealdade gritante com sua melhor amiga.

 

Ao se sentir ameaçado, ele mexe com o psicológico de Jules. Ele afirma que foi um ato de traição de ambas as partes. Afinal, ambos queriam. Assim, Nate a faz sentir medo e remorso, ato que não o isenta de tomar a situação para si visto quem é sua namorada. Óbvio que a sua dita própria verdade vence e as amigas se afastam. Atitude que destaca a manipulação como fonte de opressão à vítima.

 

Nate é a voz daquele que trata e vê a mulher como vadia e a culpada pelo estupro. Ele afirma que é o Deus da faculdade e que, por isso, jamais será deixado na mão. Todas as vezes que ele querer, assim terá e ponto final. Seu highlight na série entrega seu senso de poder e como o usa sem pestanejar. Um poder que é a expressão do machismo e da misoginia, e que a universidade abraça. Um poder que o inocenta porque o patriarcado o protege. E é revoltante porque você sabe que isso é real.

 

O que faz com que a gente quebre junto com Jules. Não tem como não querer o acerto de contas. Ou até mesmo querer ser uma Vigilante para dar um fim nessa palhaçada. Queremos a absolvição dela, que é o interesse essencial de Sweet/Vicious. É o cerne de tudo. Ela é símbolo de vítima, de sobrevivente e de justiceira.

 

 

Sweet/Vicious - Pesquisa

 

“Esta é a única forma que me sinto viva. Esta é a única forma de o impedirmos de transformar garotas em mim.”

 

O que vem a partir da manipulação de Nate é devastador. É quando damos de cara com outro ponto: não acreditar na vítima. Kennedy, muito bem interpretada por Aisha Dee, representa esse outro pilar e fica ao lado do boy.

 

Ao contrário de Ophelia, Kennedy representa o pensamento comum de que a mulher sempre age de má fé e que o homem sempre tem razão. Embora não exista rivalidade feminina em Sweet/Vicious, a atitude dessa personagem vem à tona como se existisse tal coisa entre as BFFs. O que traz a situação incômoda de vê-la manter o relacionamento com Nate. Dói, parece desrespeitoso, especialmente porque acreditar no estuprador não faz sentido.

 

Nunca fará sentido, mas o patriarcado nos ensinou a ver a outra mulher como a causadora da sua própria merda. Não é à toa que sempre haverá os questionamentos sobre a roupa e a sobriedade de quem foi estuprada.

 

Os únicos homens que prestam nesta série são Harris e Tyler. Tyler soa como o interesse romântico aleatório de Jules, mas, conforme a trama avança, você vê que ele é a tentativa dessa personagem em lidar com parte do seu trauma. Muitas vítimas não se relacionam depois de um abuso e, por mais que eu tenha considerado até que muito rápida essa evolução, Jules conquistou esse trecho da sua trajetória dentro do plausível. Tudo bem que esse cara ainda tem um peso extra, mas spoilers.

 

Tyler não deixa de ser um tipo de gatilho para Jules, pois ele também contribui para empurrá-la de novo na montanha-russa do seu estupro. Montanha-russa que descarrila porque o que ela vai sentindo, não apenas por esse rapaz, se expressa com mais intensidade e irresponsabilidade no punho que acerta os caras acusados de estupro. É o estresse pós-traumático não tratado e é Ophelia quem chama a atenção da amiga para essa questão.

 

Em um mundo cheio de homens, ver dois valerem a pena parece verídico. Tyler e Harris apoiam Jules e Ophelia, sem saberem que elas são Vigilantes. Harris é o mais importante, pois ele bate na questão da identidade das super-heroínas ao investigar o movimento do campus. Atitude que abre mais tensão para a questão da justiça com as próprias mãos, pois ele se torna outro compasso moral. Contrário à Ophelia, é o papel desse personagem nos empurrar no bug sobre a missão de vingança.

 

Quando Jules tenta denunciar Nate de novo, sendo realmente ouvida e tendo apoio das amigas, e falha, o agridoce da falta de justiça, que faz muitas vítimas nem sequer cogitar a denúncia, dá na nossa cara. O que calha no processo de rever o papel das Vigilantes. Reflexão que traz um season finale muito inspirador. Muito forte. Muito empoderador. Eu chorei com um D de desespero porque podia ser uma realidade.

 

(e sei que há suporte de mulher para a mulher sobre o estupro, mas há muitas que seguem em zonas de risco e totalmente desamparadas).

 

Sweet/Vicious é extremamente cuidadosa na construção da perspectiva do estupro, nas suas consequências e em como as circunstâncias alteram o posicionamento dos personagens. Há uma resolução tão doce e linda que fico até arrepiada de me lembrar. Nem tudo é tão fácil como imaginamos e Robinson claramente tomou cuidado em sua abordagem. Especialmente para não ficar tão pesada.

 

Do meu ponto de vista, a experiência com esta série foi um tanto pesada porque eu sou vítima de um tipo de abuso. E me vi em cada emoção exposta por uma Jules que passa por todas as fases do estupro e se sente violada novamente por Nate – psicologicamente falando. Ele tira tudo dela de novo.

 

E quando ela pensa em desistir, seu sistema de suporte se revela o ouro de Sweet/Vicious. 

 

Compasso moral e a denúncia

 

Sweet/Vicious - Ophelia, Jules e Kennedy

 

“Acha que pode se esconder atrás dessa máscara e tudo estará bem? Você precisa lidar com o que aconteceu com você. E se o grupo de apoio não ajuda, tudo bem, mas você precisa fazer alguma coisa.”

 

Jules e Harris são os polos do certo e do errado quanto ao papel de Vigilante. Ela assume a justiça com as próprias mãos e sabemos que é errado. Em contrapartida, e como eu já disse, a personagem dá voz ao pensamento que muitas mulheres têm de fazer exatamente a mesma coisa com estupradores. Já ele, indaga se não há outra maneira, uma mais positiva e eficaz, para vingar as vítimas e ajudá-las no processo.

 

Por não obter justiça no campus da universidade, Jules criou uma segunda identidade para dar sua lição e seu aviso. E é sucesso porque os caras tremem. A série nos diz, por meio de uma parede no banheiro feminino, com o nome dos estupradores do campus, de que esse é um mal necessário. A instituição não ajuda. Nem a polícia. Alguém precisa fazer algo e é aí que as Vigilantes entram em cena.

 

Harris é o contraposto das Vigilantes. Assim que descobre quem elas são, ele se mostra contra essa atividade. Inclusive, diz o quanto essa ação de vingança é perigosa já que ambas ficam expostas e uma reviravolta nada animadora pode ocorrer (e daí lembramos do Piloto). De quebra, todo ato de violência não deixa de ser crime. Embora seja emocionante ver Jules e Ophelia mandando ver, não tem como ignorar que, em determinado momento, essa dinâmica acarretará suas consequências.

 

Como a cadeia propriamente dita.

 

Sei que muito de mim é contra a justiça com as próprias mãos, mas eu penso no morte ao pênis com extrema frequência. Reflexão que esta série endossa do ponto de vista de Jules, que acredita que a única forma de ajudar outras garotas é por meio desse tipo de violência. E daí temos Ophelia que também entra como a consciência, mas centrada no quesito de que sua parceira de missão precisa cuidar da saúde mental. Precisa retornar ao grupo de apoio e ter um acompanhamento médico.

 

Sweet/Vicious é sagaz nessa alternância de tom. De um início violento, a série transita até encontrar a concordância. Da justiça com as próprias mãos, Jules e Ophelia percebem que prestar auxílio às vítimas é uma das melhores saídas em vez de correr o risco de terminar na cadeia. Ou de assassinar alguém (de novo).

 

Mas não nego que o season finale deixou aquele pensamento sobre ambas seguirem com a violência. Afinal, Ophelia se usava dessas informações para repassá-las a Jules. Eu escolhi acreditar que o que foi criado no fim se deu no pensamento de direcionar as denuncias sem ninguém correr risco de vida ou de ir para a cadeia.

 

Vale dizer que a cadeia impera entre elas e isso é muito bom. Sufoca a surrealidade. Quebra a sensação de nave da Xuxa em que heroínas não sofrem consequências (e eu não curto isso). Viés que muitas séries apostam. Ambas mastigam vários tipos de caos, especialmente interiores, muito além de socar os estupradores, como o que transcorre no Piloto e que rebate no mencionado Tyler.

 

E preciso dizer que esse ponto do Piloto destoou de todo o resto. Deixou de ser importante porque Nate roubou a trama no instante em que foi revelado como estuprador de Jules. O “incidente”, que nasceu na tentativa de criar um mistério e de segurar telespectadores, acabou esquecido e senti que contou com uma resolução de última hora para garantir o cliffhanger (e a renovação que infelizmente não rolou). Sendo que era claro que não tinha como sair desse sinuca de bico. Não quando falamos de duas jovens que se mostraram descuidadosas várias e várias vezes.

 

Deu a entender que a série não conseguiu levar esse “incidente” porque só havia uma solução. Eu mesma não consegui ver como solucionariam tal questão sem decretar prisão e acreditei que esse viés tinha sido deixado de mão. Era um claro dead end e sua resolução foi a única parte de Sweet/Vicious que não curti.

 

Ao menos, deram uma conclusão a um conflito (de nada) que, particularmente falando, acabou no esquecimento diante da vingança das Vigilantes. Diante de Nate. Diante de Kennedy. Diante do reviver de Jules com relação ao seu estupro. Porém, esse viés trouxe algo relevante e que comentei lá em cima: o risco de xilindró. Situação que Ophelia e Jules não poderiam deixar de experienciar.

 

No meio da violência e do julgamento em cima das morais humanas, a série traz a conscientização sobre o estupro e trata o estupro sem romantização. Jules e Ophelia se veem o tempo todo em situação de risco, que reflete nas correrias de saber quem é a vítima e quem é o estuprador. Não há denúncia em grande parte de Sweet/Vicious, pois a trama se segura na meta de proteger os caras no intuito de mostrar o quanto as mulheres ficam de mãos atadas nessas circunstâncias. Salvo Jules, há outra garota que conta o que houve, servindo de reforço para o fato de que nada ali vai pra frente.

 

Sweet/Vicious trabalhou muito bem o menos é mais e desenvolveu o grupo de seus personagens. Não se criou tanto ruído ao longo do desenvolvimento de Jules e de Ophelia. Nem muito detrimento de personagem diante dos casos de estupro. Há muita riqueza de storyline e ninguém fica realmente na mão.

 

A não ser as vítimas que são afetadas pelo desencorajamento da denúncia.

 

A série explora o estupro em um tom consideravelmente ameno, sem usar, abusar e saturar em busca de impacto visual e dá tempo de refletirmos sobre o que ocorre. Em cada episódio, se checa a moral e a compreensão sobre o que Jules faz e por que faz. Os roteiros dão a chance de entrarmos na cabeça de cada personagem para assim investigarmos como nos sentimos e não é bom. Não é bom ver o retrato de uma realidade que tem se alterado a passos de bebê – e estamos perto de um retrocesso.

 

Apesar desse tom ameno, não há suavidade para mostrar os males do estupro. O que faz de Sweet/Vicious aquela série que entra embaixo da pele e que aperta todos os botões quanto ao assunto. Principalmente de mulheres que passaram por isso ou tem acompanhado os casos e a falta de punição aos estupradores.

 

Inclusive, rela sem um pingo de dó na outra verdade de que há muita mulher que defende estupradores (não necessariamente por serem estupradas). Fato que acabou no colo de Kennedy e doeu na alma porque acontece. Vira e mexe a culpa é da vítima e mulheres com machismo internalizado pensam exatamente dessa maneira.

 

Sweet/Vicious - apoio

 

“Você merece ser ouvida. E você será ouvida.”

 

O peso de Sweet/Vicious vem também sobre o quanto esconder o estupro é devastador para as vítimas tão quanto a falta de interesse sobre o ocorrido. Apesar de ter personagens secundárias que trazem esse drama e o reforça, Jules é o centro. Ela começa firme com seus golpes ninjas enquanto afugenta sua verdade. No auge da missão, ela contesta tudo e todos. Ela julga seu papel de Vigilante e o realismo do seu estupro no instante em que Nate a cerca ameaçadoramente. Pouco a pouco, vemos essa jovem quebrar por não conseguir falar. Por acreditar que não terá apoio. Por acreditar que ficará em silêncio para sempre.

 

Por essas e outras que Jules acredita que ser Vigilante é a única maneira de impedir que outras garotas se transformem em sua versão atual. Sozinha. Violada. Machucada. Amarga. Insegura.

 

Apesar do tom de vingança, Jules só quer proteger qualquer garota e o episódio 1×07 é essencial para compreendermos isso. Inclusive, para compreendermos o coração pulsante de Sweet/Vicious. É nesse episódio que vemos o estupro dessa personagem e o reporte nem um pouco bem-sucedido – que não vai para frente por ela se ver diante das rotulagens de praxe. E revolta ouvir tais questionamentos.

 

Que roupa vestia? Estava bêbada? Não era vingança contra a melhor amiga? Ou um meio de culpar o cara por ter furado o olho da melhor amiga? É enojante, mas, ao mesmo tempo, esclarecedor porque muitas passam por isso. E, por passarem por isso, o silêncio supostamente melhor cabe. Pelo descaso e pelo sistema sempre proteger o homem, muitas já têm em mente que denunciar mudará vários nada. Os caras seguirão protegidos enquanto as mulheres sairão de cena por vergonha.

 

Por medo dos pais. Do estuprador. Da opinião geral. Mulheres que foram estupradas ainda têm que desistir de tudo, como estudar. Um fato perpetuante desta série e que Jules não se conforma – e que se transforma em acréscimo aos seus intentos.

 

O episódio 1×07 merece todos os prêmios, aplausos e choros. É o retrato real de várias meninas em ambiente universitário americano que nem ao menos conseguem identificar se realmente foram vítimas dessa brutalidade. Como ocorreu com Jules que teve que ir ao fundo do poço para checar se o que ocorrera não era coisa de sua mente e assim ser ouvida. E ela teve que ir fazer uma nova denúncia, abrindo todas as cicatrizes e ainda tendo que aturar as ironias do seu estuprador.

 

O que mostra o quanto esta série é totalmente intencional em seu discurso. Comprometida com sua premissa, muito além do papel das Vigilantes. Há uma delicadeza um tanto brutal na abordagem de um tema extremamente impactante e que precisa ser desconstruído de muitas mentes. A showrunner e seu time de roteiristas denunciaram uma verdade com muita verdade. Sendo bem redundante mesmo. E, no fim, ouvimos o que muitos ainda refutam: não é culpa da vítima.

 

A série desafia a vítima vs. o quanto os estupradores saem imunes vs. a justiça não liga para a vítima vs. vamos provocar nossa própria justiça. É o contexto de Sweet/Vicious que traz uma agridoce experiência.

 

Aqui, temos uma história que cumpriu satisfatoriamente seu papel e que chateia por ter sido cancelada ao contrário de muitas que existem por aí que usam desse ponto unicamente como necessidade ilógica para ver se a personagem amadurece. Ou só para causar impacto, o fator de choque, sendo que existem incontáveis meios para isso. Sweet/Vicious é um tesouro, uma porta escancarada, sobre esse tema e não hesitou um só segundo ao entregar o que de fato acontece.

 

Robinson não teve medo de contar essa história na voz de duas personagens carismáticas. As atrizes são incríveis e nos inspira a chorar, gritar e sorrir. Não há meias palavras nesta série. Não quando a meta é checar o que achamos sobre o estupro e discutir sobre o porquê mulheres seguem sendo culpadas quando são vítimas e homens seguem sendo imunizados quando são criminosos.

 

Não menos importante: sobre o quanto o estupro é normatizado e ignorado.

 

Sweet/Vicious é uma carta aberta sobre uma verdade/realidade que nem todos têm a audácia de digerir. Nem muito menos o peito de desconstruir de uma vez por todas sobre a culpa nunca ser da vítima e sobre ser um crime. Estupro não é sexo consentido. E o não jamais será o famoso “charminho” ou “está se fazendo de difícil”. Essa série deixa a garganta seca por justiça. Justiça em nome daquelas que pontuaram o nome de seus estupradores na parede do banheiro feminino.

 

E por todas as outras paredes que ainda são simplesmente ignoradas.

 

Mais motivos para assistir

 

Sweet-Vicious - denuncie

 

“Nós acreditamos em você.”

 

Repetindo o aviso: se você tem gatilho, dê uma estudada antes de conferir esta série. Se você é adolescente, e passou por isso, tenha a companhia de algum mais velho na hora de assisti-la.

 

E se você não passou por nada disso, assista para entender mais o assunto.

 

Sweet/Vicious tem uma narrativa envolvente. Ri. Chorei. Temi. Aprendi. Reaprendi. São poucas as séries voltadas para o público jovem que realmente são criadas com a noção de quantas pessoas poderão ser engatilhadas no processo. Consciente de quantas pessoas poderão ser educadas quanto à sua premissa. Mesmo sendo um conteúdo gringo, ele é aquele que nasceu para perdurar em rodas de conversa por anos. Não é à toa que o próprio entretenimento não perdoou seu cancelamento – e agora a história sairá em quadrinho e mal posso esperar para ler.

 

A cultura do estupro existe. O machismo também. E a misoginia. A culpabilização da vítima. O que esta série traz ainda é uma camadinha, mas muito significava.

 

Aqui, a história trabalha com maestria as ramificações do estupro e do assédio sexual. O texto destrincha o assunto e os resultados que geram marcas permanentes. A escrita é maravilhosa, repito, e consumi esses episódios tão rápido que nem sei.

 

Não tem como não amar e querer proteger Jules e Ophelia. Ou ser como elas ao ponto de se ver como Vigilante, criando cenários na própria mente. Até Kennedy que, indiretamente, se envolve em situações revoltantes por ser a namorada do estuprador. O tema pesado não tira o encanto dessas meninas que entregam a aliança feminina. A sororidade que precisa existir diariamente, se for possível. Não somente em casos de estupro.

 

No que começa em uma história de Origem, se transforma em uma história de muitas vidas. Jules e Ophelia iniciam na violência e terminam com uma comunidade que visa prestar auxílio em denúncia + solidariedade para com as vítimas. Uma comunidade que leva o nome da série e que derruba Nate como o merecido (e o esperado). Uma conclusão cujos desdobramentos também as fazem rever suas morais para continuar trazendo justiça no campus. É excelente acompanhar a evolução da trama, como ela sai de um ponto cego para engatar uma diferença sem risco de xilindró.

 

Confesso que fiquei com medo de assistir Sweet/Vicious e não ser o que eu queria. E foi mais do que eu queria e esperava. Jules e Ophelia ainda estão na minha mente e é triste a MTV ter cortado uma série tão necessária (isso porque é a MTV, né?). Uma série que poderia ter tido a chance de se alongar e contribuir bastante em vários processos de desconstrução sobre o estupro e qualquer outro tipo de violência contra a mulher. Participar da Era #MeToo. Trazer mais casos que não incluem só a mana branca já que a série em si precisaria melhorar sua diversidade se tivesse um futuro.

 

Seu cancelamento foi precoce sim, mas veio, infelizmente, de uma dita baixa aceitação. Não só em audiência, como também por humanos que julgaram todo o contexto como uma misandria (não entenderam mesmo o conceito, né?). Até mesmo a MTV tem culpa por não ter divulgado a série, algo que sinto bastante hoje com The Bold Type (Freeform). Contradições visto que Sweet/Vicious foi aclamada pela crítica e deu representatividade para todas as sobreviventes de maneira honesta. Robinson ficou arrasada com a notícia, bem como o cast, porque, querendo ou não, deixou a sensação de que não importa como e onde, estupro sempre será uma narrativa invalidada.

 

E, o contrário disso, é se o estupro vier de um espaço vazio para “dar valentia à personagem feminina”.

 

Repetindo também, a série não escancara suas cenas de estupro (só a de Jules) e não usa do estupro como fator de choque, para gerar apenas falatório. Há uma narrativa fluida. Bem amarrada. A criadora mostrou que sabia exatamente onde queria chegar e o que queria deixar nas nossas mentes no final de cada episódio. O texto conversa com todas as idades e com todas as mulheres. O que simboliza o combo que Jules e Ophelia representa: realidades diferentes que se unem por um bem comum.

 

No fim, há o lembrete de que precisamos girar a chave mental para buscar outras maneiras de colocar as vítimas no centro. Justiça com as próprias mãos não faz bem a ninguém e as jovenzinhas se tocam disso porque não é eficiente bater e soltar o aviso para os estupradores. O que entrega um belíssimo desenvolvimento em 10 episódios em vários âmbitos. Sem enrolação. Sem artifícios de transição batidos. É soco atrás de soco e o que fica são feridas que nos dobra entre doídas lágrimas. Eu mesma me senti parte desse universo e eu só quis justiça para todas.

 

Apesar da violência, Sweet/Vicious se harmoniza na empatia feminina. Destaco os diálogos das meninas sobre não saber o que a outra sente e ainda assim se apoiar. No papel de Kennedy e de Ophelia que querem que Jules se cuide e denuncie novamente. A sisterhood é superempoderadora. Não há competição de Miss Beleza. A série dá um suporte feminino que sinaliza que tudo ficará bem em algum instante.

 

Robinson, que contou com o apoio de nomes como Amanda Lasher (Gossip Girl The Bold Type), criou Sweet/Vicious em cima de uma história de Origem e que lembra sim um quadrinho justiceiro. Há uma jovem adulta que resolveu ser uma agente contra o crime inspirada pelo que lhe ocorreu. E Ophelia entende e age como compasso moral da Vigilante (além de ser Vigilante e hacker também). Por se tratar de um tema arriscado de se tratar na TV, especialmente porque há escritores que não conseguem desenvolvê-lo, esta série trouxe pontos de vista bem inteligentes. Machuca acompanhá-las e essa dor encontra seu descanso em picos de humor sutis que servem de sopro breve para seguirmos adiante.

 

Por último, e não menos importante, séries da MTV têm seu jeito de acertar na escolha do cast. Há muita química entre o elenco, mais destaque, claro, para Eliza Bennett e Taylor Dearden, Jules e Ophelia respectivamente. Até entre os rapazes de bem, com destaque, lógico, para Brandon Mychal Smith, que é maravilhoso como Harris. Não posso deixar de mencionar Aisha Dee, que me faz amá-la toda vez que testemunho algum trabalho seu (e ela está em The Bold Type).

 

Depois de tudo isso que falei, Sweet/Vicious vale a pena? Muito, mas cuidado com gatilhos. É algo que repito no encerramento desta resenha sim e peço que estudem antes de engatar a experiência. No mais, e muito além do seu tema, o tempo gasto com esta série compensa também pelo elenco e pelas conversas incitadas.

 

Vão seguras e se divirtam (se é que posso colocar dessa forma)!

Stefs
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