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01/nov

Quando resolvi assistir Antes que Eu Vá, eu tinha acabado de viver um dia extremamente importante. Não para mim, embora eu tenha feito parte dessa importância, mas para minha irmã. Depois de tantas idas e vindas, de tantos receios e de tantos obstáculos, eis que chegou o momento dela em iniciar a jornada universitária. Faz uns bons dois anos que testemunhei essa hesitação, regada de vários nãos. Com dizeres de que “não é pra mim”. Quando essa história começou a dar a entender que finalmente viraria, eu me senti muito grata de estar aqui para ver isso.

 

De segunda a sexta, eu passo horas e horas fora de casa. Horas e horas presa em uma sala estreita sem janelas. Horas e horas pensando com meus botões sobre o que posso fazer para mudar minha vida. E assim chega o último dia da semana e a única coisa que penso para o final de semana é botar o pijama e hibernar. Meramente porque sábado e domingo são meus dias de recobrar as energias e, às vezes, me saio como grande declinadora de passeios.

 

De tanto ver gente de segunda a sexta, nos finais de semana não quero ver ninguém. Nem botar a cabeça para fora. Uma tarefa diária em constante melhoria, pois eu aprecio o isolamento. Isso é muito meu. Faz parte da minha personalidade e não tenho a menor intenção de mudar. Não totalmente, pois, querendo ou não, parte dessa escolha me retira de vários momentos importantes da vida de outras pessoas. Pessoas que amo muito e que me retiram da minha própria vida. Criam frescor em minha própria jornada. Têm uma paciência que eu não teria comigo mesma.

 

Não sinto remorso na recusa, pois as recusas sempre estão prontas. Em contrapartida, eu pondero depois sobre os verdadeiros motivos de simplesmente não ter me esforçado um tanto mais para sair. E “esforço” nem é a palavra correta, porque soa como uma obrigação sendo que não é – e nem é legal agir desse jeito. Enfim. Eu tenho dessas de me preservar e tudo mais, mas, de quebra, eu passo muito tempo na minha cabeça. O que é bom, mas chega uma hora que deixa de ser saudável.

 

Quando tem chance, graças ao meu isolamento, minha mãe sempre diz: uma hora você está aqui e na outra não. Uma frase que soa clichê, uma chatice de mãe, mas é a mais pura verdade. Apesar de me manter de fora da vida das pessoas em grande parte do tempo, mais por minha causa, vários pertencer se perdem.

 

Como disse, não me sinto mal, mas há outra verdade embutida: você não sabe quanto tempo tem aqui. Quanto mais você pondera, menos tempo se cria para fazer, para estar e para ser.

 

Eu tenho tentado mais em fazer parte da história do outro. Não é tão fácil quanto gostaria visto que minhas mãos suam diante da ideia de perder um dia do final de semana e minha mente já vem pronta em meter alguma desculpa (seja por qualquer razão, vai entender). E a desculpa é a primeira coisa que penso. Sempre. Mas, ultimamente, tenho escolhido parar com isso. Parar com essa de temer o dia, o que me faz cair na poesia de que haverão outros dias.

 

Inclusive, parar com essa de inventar desculpa quando eu só não quero ir ou não fazer coisa X ou Y e pronto. As pessoas ao nosso redor precisam respeitar essa decisão também e sei que é difícil. Há essa pressão que elas impõem ao ponto de você se sentir mal e não é correto. É muito do abusivo se analisarmos bem.

 

O que se aplica também aos compromissos pessoais, como atualizar um site. Não é saudável se sentir mal por não fazê-lo em determinado dia. Não deu tempo, você não quis e está tudo bem. Algo que aderi com muito sucesso e foi fácil porque estava descontente com esta casinha.

 

O grande problema, que não é um problema, é que eu tenho a regra autoimposta que diz que o final de semana é meu. Dois dias que não quero ver gente. Dois dias que eu preciso fazer o que não consegui durante a semana. Determinação que existe com tremendo afinco dentro de mim e que chego a contestar, porque eu gosto de estar com as pessoas e de bater um bom papo. Eu gosto de conhecer lugares novos, dividir experiências e assim por diante.

 

Além dessa regra autoimposta, sou introvertida e isso exige preparo psicológico para sair. Eu preciso saber de tudo antes para minha rotina do final de semana não ser comprometida. Houve diversas vezes que deixei de sair por motivos de resenha. A ideia de atrasá-las me comia viva visto que durante a semana eu tinha outros objetivos – e, de novo, isso não é saudável. Hoje, eu tento deixar tudo o mais adiantado possível para não vivenciar essa aflição (#ansiedade).

 

Em suma, eu reaprendi a valorizar os instantes fora do meu casulo. Tratá-los como uma prioridade, pois sair também contribui positivamente para minha saúde mental. Não nego mais o desconforto que sinaliza que, naquele fim de semana, é inconcebível ficar em casa. Isso, preciosos, é um tremendo avanço para quem tinha o guia das desculpas. Hoje, eu tenho preferido dizer sim.

 

Não me incomodo de ficar em casa sozinha, mas sei que há experiências incríveis lá fora também.

 

Experiências incríveis que também nascem quando estou sozinha.

 

Seja como for, o resultado é o mesmo: a vida é uma balança e precisa de dosagem. Uma dosagem que nos faz experienciar o que é bom e o ruim de diferentes pontos de vista.

 

 

Todo o relato acima cabe à experiência que foi acompanhar minha irmã rumo à universidade. Foi numa sexta que ela me mandou uma mensagem, no horário do expediente, me perguntando se eu lhe faria companhia. Obviamente que ponderei quinhentas vezes, porque o dia seguinte era um sábado e eu só queria ficar em casa – e esse sempre será meu primeiro pensamento com qualquer convite, sem exceções. Uma parte de mim iria muito de boa, pois se tratava de um ponto de virada sensacional. Já a outra parte calculava as coisas que eu deixaria de fazer por simplesmente estar lá.

 

Como escrever o que tenho chamado de livro, atualizar o site que, recentemente, troquei de URL e está uma bagunça, arrumar o guarda-roupa, fazer faxina… Para além da introversão, minha mente é extremamente ansiosa e não lida muito bem quando algumas coisas acontecem no famoso em cima da hora.

 

Eu não trabalho em cima da hora e todo dia é um 7×1 para melhorar esse aspecto em mim. Às vezes, eu nem quero mudar. Ainda mais quando sei que este ano será decisório para mim e não quero quebrar meu ciclo de produção.

 

(que, a essa altura do campeonato, está totalmente comprometido).

 

Deixei a mensagem morrer. Algo que sempre faço. De fato, não havia problema algum em abrir mão de algumas atividades para acompanhar a sis. Um processo que soa fácil, mas não é. Eu realmente desenho todos os cenários na minha mente e fico aflita até decidir se vou ou não.

 

Como, por exemplo, se a pessoa vai me odiar se eu não for. Gente, isso não é saudável também.

 

O famigerado sábado chegou e eu estava lá com a minha irmã na universidade. Isso me afetou? Não. Nunca me afeta porque, depois que venço quaisquer sinais de relutância, a calça jeans fica mais folgada. Nem sequer pensei no que deixava para trás, pois, assim que pisei na entrada, parecia que entrei em outro tipo de universo. Eu estava ali em um dos momentos mais importantes da vida da minha irmã e era fato que me arrependeria se tivesse me negado a ir.

 

Esse foi o dia em que joguei biscoito nela, tirei foto da fachada e subi a rampa como Sebastian puxa Annette para dentro da casa (Segundas Intenções) da tia. Eu saí da faculdade apertando ela de ladinho, dizendo toda hora o quanto estava orgulhosa da minha não mais bebezinha. Além de ser um avanço para ela, vi tudo como um novo avanço para a nossa irmandade. As coisas nunca foram fáceis pra gente, nem nosso relacionamento que contou com vários picos ruins em reflexo ao que nos consumia em casa. É sempre muito bom saber que, sempre que dá, escolhemos uma a outra para compartilhar a vida e assim nos sentimos menos sozinhas. Somos o pilar uma da outra.

 

Foi um momento muito feliz.

 

E eu fiquei muito feliz de estar lá tão quanto minha irmã.

 

Foi um dos melhores momentos deste meu ano, sem dúvidas.

 

 

Antes que Eu Vá - Samantha

 

Por quais motivos eu contei essa história? Basicamente é a premissa de Antes que Eu Vá. No caso, tornar o hoje importante porque não há garantia sobre o amanhã.

 

Antes que Eu Vá começou a criar raízes na minha mente quando vira e mexe minha irmã fazia um biquinho e dizia que o filme era de chorar like a baby. Bem, minha irmã não é uma pessoa que chora por qualquer coisinha, ao contrário de mim que chora graças à Vênus em Câncer. Conteúdos que inspiram lágrimas têm meu voto. E quando sua irmã, que não chora por qualquer coisinha, diz que chorou, bem, precisei botar isso à prova.

 

Conforme o esperado, demorei um bocado para vê-lo, porque estava na fase de evitar Young Adult/New Adult. Hoje, retornei a explorar esses universos porque eu escrevo um YA (ao menos é o que eu acho). Não sei como explicar isso, mas a fase de me esbaldar com esses gêneros simplesmente faleceu, o que tornou conteúdos com esses vieses não exatamente minhas prioridades na hora de me distrair. Durante a época que tais gêneros bombavam, me vi saturada de ler/ver enredos muito semelhantes. Assim, nasceu um distanciamento amigável.

 

A coisa mudou de cara novamente quando, no mesmo dia em que fui até à universidade com minha irmã, zapeei a Amazon Prime Video e me lembrei deste filme. Um filme que entrou na minha vida em uma noite de sábado, regada à pizza, e fez sua bagunça interior. No domingo, eu não parava de pensar no que assisti e simplesmente decidi sentar e escrever este texto que não é exatamente uma resenha. É sim um desabafo sobre a importância dos momentos. Momentos que, com ou sem impasses da vida, me fizeram dar de ombros por anos.

 

Uma situação que tem vários pontos de conflito e que não os explorarei neste texto. Contudo, cabe no que já mencionei: eu vivi uma solitude autoimposta e é fácil demais viver dentro dela.

 

Antes que Eu Vá - girl group

 

Talvez para você haja um amanhã. Talvez para você haja mil. Ou três mil. Ou dez. Mas, para alguns de nós, só existe hoje. E o que você faz hoje, importa. No momento. E talvez até a eternidade.

 

Antes que Eu Vá (Before I Fall) é um filme inspirado no livro de mesmo título assinado por Lauren Oliver. Um fato que me surpreendeu bastante apesar de eu ter uma noção de que este filme acabou adaptado de algum livro – e eu só não sabia exatamente qual. Por ter sido uma experiência às cegas, eu realmente não imaginava que o roteiro vinha da autora de Delírio, um dos poucos livros YA distópicos, fora do ciclo das autoras populares, que gostei demais (e espero ter a chance de ler a continuação). Além do mais, eu tinha me esquecido de que essa mulher existia.

 

Heresia cometida graças ao meu mencionado distanciamento desse gênero. Graças a este filme, lembrei até de nomes como Stephenie Meyer, outra mulher que, apesar de Twilight, eu curto muito a escrita. O mesmo vale para a Lauren, que me deixou com vontade de comprar o livro que inspirou esta adaptação para matar a saudade dessa jovem, sim senhora – e assim o farei muito bem breve.

 

O filme traz Samantha Kingston, interpretada por Zoey Deutch, vivenciando o despertar de um Dia dos Namorados. Neste dia, ela tem grandes planos com seu namorado, além de ganhar mimos das melhores amigas e mimos aleatórios inspirados nesta data – como receber flores com bilhetinhos de algum colega da escola (ou quase), algo bem Meninas Malvadas. Na abertura, vemos essa personagem saboreando este momento e o que transcorre a partir daí nos dá a primeira versão de quem ela é. De como se comporta. De como é sua rotina familiar/escolar.

 

Essa é a primeira e única versão da sua história. Do seu dito verdadeiro eu. Com isso, levamos essa bagagem para acompanharmos as mudanças ao longo do filme e que se apoia na suposta repetição do mesmo dia em questão.

 

Como a maioria das adolescentes, Samantha repele a mãe, algo sinalizado pela risca feita de esmalte na soleira do seu quarto. Ela não tem muita paciência com a irmã mais nova e deixa isso claro graças ao famoso aviso de que irmã mais nova não mexe nas coisas da irmã mais velha. Ela nem sequer enxerga o pai e, de quebra, tem uma melhor amiga extremamente popular que é o protótipo da mean girl – e essa jovem é um belo contraposto porque sua maldade é conivente.

 

Daquele jeito de ver a amiga fazendo bullying com alguém e ficar caladinha. No caso, Juliet.

 

E não posso me esquecer do namorado que, claro, é popular e não vale um golpe.

 

A partir do momento que conhecemos esses personagens, em um frame inicialmente muito superficial, não demora muito para chegarmos na noite em que Samantha perde a vida. O que se espera depois disso é o funeral e ver como as pessoas lidam com a perda de uma pessoa relevante em suas vidas (ou quase porque há sempre um quase visto que ser especial é relativo). Não é isso que ocorre, pois a jovem morre e acorda no mesmo Dia dos Namorados. E, de novo, ela lida com as mesmas pessoas e com o mesmo ciclo casa-escola-festa até morrer… Mais uma vez.

 

E outra vez. E mais outra.

 

Honestamente, eu amo histórias em looping, por assim dizer. Eu mesma acredito que vivo meu próprio looping, porque a repetição de certos ciclos parece que não tem fim.

 

Antes que Eu Vá - looping

 

O roteiro pesa no trope Groundhog Day Loop, que pode ser chamado de efeito borboleta, se assim preferirem. Algo que o longa identifica com uma imagem de borboletas que fica próxima da cama da protagonista. Dessa forma, a repetição que se dá em Antes que Eu Vá traz o tom de sonho interminável e que se encerrará quando a falha do cenário for encontrada. Só assim para sair de lá.

 

No caso de Samantha, a repetição quer que ela enxergue verdadeiramente as pessoas ao seu redor e o que poderia ter feito de diferente antes de morrer. Inclusive, o loop quer que ela reveja suas atitudes.

 

Atitudes mais centralizadas em Juliet, pois Samantha vê o destrato e mantém a pose velada.

 

Na primeira vez em que desperta, Samantha não tem muita certeza se está viva ou morta, e acredita que aquele novo dia não passa de um dia seguinte – ou de um sonho, como disse. Quando ela vê que a conclusão é basicamente a mesma, e que retorna sempre para o mesmo lugar, sua decisão é mudar o cenário e as resoluções para que uma situação em específico não ocorra.

 

E, claro, para interromper o looping que não demora muito para estressá-la. Dessa forma, a protagonista vai alterando as grandes reviravoltas pelo que melhor lhe convém a fim de sair da repetição. Ação que confere a dinâmica completa do roteiro e que entrega que não importa em que canto ela esteja, nada mudará o final. É tarde demais para isso acontecer.

 

O filme todo é sobre Samantha querendo sair dessa perturbação. Ela busca soluções para terminar o que quer que tenha começado o incômodo looping e é aí que vemos diferentes humores e reações autoimpostas. Cada repetição a abre para algo novo e a faz agir/reagir diferente da sua “versão original”. É quando coisas outrora não ditas vêm à tona. O mesmo para sentimentos silenciados em reflexo do grupo de garotas que convive.

 

Quando a realização de morte cai em cima de sua cabeça, a personagem muda o leme desse cenário para assim se libertar. Em vez de impedir, Samantha pega as cenas em que foi rude e as torna melhores, por exemplo. O que lhe resta é não quebrar a sequência do seu último dia assim que nota que não existe mais na narrativa das pessoas queridas. Dando-se por vencida, não há correção, como rola nas repetições anteriores, mas o assentar da perspectiva de dar valor a quem não deu quando estava viva. De quebra, perceber como poderia ter sido um ser humano melhor.

 

E é quando Samantha reconhece que precisa fazer suas próprias conciliações. Mesmo que ninguém ali sinta o seu propósito.

 

Nessa transição dentro do seu próprio limbo, Samantha reconhece atitudes que nunca foram legais. Como afastar sua mãe. Como gritar com a irmã mais nova. Há outros instantes que merecem destaque visto que significaram demais para o roteiro sinalizar que essa história não é sobre mudar de comportamento a fim de evitar o inevitável. Na verdade, é sobre rever a vida e o que se perdeu. Dar-se conta do que poderia ser mudado hoje. Agora.

 

Antes que Eu Vá não é sobre a morte. É sobre se dar conta de que você não existe mais. Sobre não pensar nas marcas que criamos em vida. Não é sobre o vácuo, embora a atmosfera do filme intente o gélido fim do ciclo. Na verdade, é sobre o olhar peculiar que, normalmente, não temos quando estamos aqui. E, de certa forma, encontrar a paz nisso.

 

De nada adianta nos moldarmos para caber às circunstâncias para além da morte. Algo que Samantha faz no looping. Há o instante em que ela decide ser uma santa e não dá certo porque o looping retorna. Em seguida, ela reage na nova repetição como a pior pessoa do universo. Transformações que escalam a negação e a raiva que se fundem no luto por si mesma. Nenhuma dessas mudanças a tira desse pesadelo, mas a conhecemos mais tão quanto os personagens que a cercam – que mudam basicamente de lugar e não de atitudes.

 

Juliet é a falha no seu looping e é onde a história machuca. Ela é o fio condutor da morte de Samantha. O fio condutor que faz Samantha, obviamente tarde demais, ver o quanto a vida é delicadíssima. Algo que sabemos, mas, normalmente, não nos importamos muito. Se acordamos vivos no dia seguinte, soa como a afirmação de que permaneceremos assim ao longo do dia, sendo que tudo pode acontecer.

 

E Samantha nem sequer retornou para casa.

 

Antes que Eu Vá

 

Como você quer ser lembrado aqui?
O que você pode fazer para se tornar quem você é?

 

A proposta do filme é indagar sobre o que você mudaria antes de partir. É revivendo seu despertar que Samantha descobre isso e vê o quanto perdeu ao se deixar levar por um relacionamento furado. Por acatar o que sua melhor amiga fazia com Juliet. Por ignorar a família. Momentos que configuram em uma perda maior e que simboliza a mudança que a personagem poderia ter feito em vida: a partilha. A partilha que nos faz estar lá pelas pessoas que nos importa, independentemente das circunstâncias.

 

Ela também não teve tempo de ser sempre gentil e compassiva e viu, do pior jeito, o quanto nossas ações afetam o outro. Afetam o ciclo da vida no geral porque nossas vidas são conectadas.

 

E eu acredito piamente nisso.

 

Há muito no filme que envolve toque das mãos. A conexão de Samantha e que rebate no seu sentimento de perda. Na sua realização de que seu tempo se fora. É o máximo de proximidade que a personagem tem com aqueles que ou nunca conversou ou destratou em vida. A parte que dói porque não haverá esse tipo de envolvimento de novo.

 

O que me faz dizer que este filme também tem outra coisa que gosto muito: prezar pelos detalhes. Embora o revival do mesmo dia seja o mote, as entrelinhas mostram quem foi Samantha e o que ela intentou mudar.

 

Quem ela realmente amou, mas nunca se preocupou em deixar claro apesar dos pesares adolescentes.

 

Samantha mudou sua narrativa que visou seu encontro com a verdadeira moral de tudo. No caso, a moral da sua existência. Uma pena que era tarde demais para se dar conta dessa diferença. Dessa ausência que entrega que somos atos. Decidimos esses atos todos os dias e não utilizamos cada um deles. A vida é nosso palco e nossas escolhas compassam a nossa trama aqui.

 

Antes que Eu Vá

 

Samantha tem um peso extremamente melancólico graças à atmosfera de que seu tempo passou. Consciência que ela adquire conforme acorda no mesmo looping e tenta realizar uma mudança. Sua narrativa é uma súplica contemplativa, regada pelo cinza do dia que se deu seu último suspiro e pela chuva que expressa a perda de quem não pode mais remediar as coisas. Deixar o repeteco da nossa partida nos definir não é uma proposta atraente, pois podemos ser relevantes e melhores em vida. No cinema isso funciona, especialmente quando há uma moral bonitinha. Contudo, o marco da nossa existência não se dará por meio do efeito borboleta.

 

Antes que Eu Vá recai totalmente em um trope que me incomoda se mal usado e que cabe muito mais para questões românticas. No caso, o brigar do casal para terminar em morte, o que gera a famosa angústia masculina. Aqui, Samantha é a angústia. Uma angústia bem sutil porque o filme é muito mais introspecção.

 

A história frisa que o que fazemos hoje importa e há uma verdade puríssima nisso. A maneira como tocamos ou estraçalhamos o outro cria camadas que definem quem somos e deixa a nossa marca no outro. Temos plena capacidade de influenciar um a existência do outro, algo testemunhado em Juliet. Aos olhos de muitos, como de Samantha, foi tarde demais.

 

Mas, hoje, pode não ser.

 

O que mais me marcou ao longo de Antes que Eu Vá foi, óbvio, o relacionamento perdido de Samantha com a irmã. Antes de falecer, a personagem é simplesmente ácida com a pequenina e ela nunca teve a chance de arrumar isso a não ser em seu looping de recriação de boas memórias para carregar e para recordar sempre. Algo que relacionei de pronto à experiência de ter ido à universidade com a minha irmã. Se eu partisse naquele dia, com certeza isso seria um dos meus maiores arrependimentos. Eu deixaria de estar lá porque estava “ocupada demais” ou presa aos meus anseios que sempre faz entrar em uso o meu guia de desculpas.

 

Eu me vi em algumas partes que compõem a história de Samantha e deve ser por isso também que esse filme ficou comigo. Eu fui muito arisca com a minha irmã na adolescência. Grossa e distante. O mesmo para com minha mãe, relação que encontrou seu ponto de regeneração muito recentemente. Obviamente que tive meus motivos, mas demorei anos para dizê-los. Se eu não estivesse aqui, com certeza sairia de cena com relações desamparadas.

 

A gente sempre prioriza o que sentimos, nosso espaço, nossa vida, nossos desejos, e esquecemos do outro lado. O caso de Samantha. O caso de todos nós. E pode ser tarde demais.

 

Se eu estivesse no lugar de Samantha, a relação com minha irmã seria o que eu remediaria em meu looping. Seria ela que eu veria em todo despertar no mesmo lugar e no último despertar. Possivelmente, não para reparar uma briga, mas para dizer que sinto muito pelas coisas que não consegui ajudar e pelas vezes em que fui a pior humana.

 

E é com a irmã que Samantha fecha o seu ciclo e foi aí que as lágrimas prestaram uma visitinha.

 

Antes que Eu Vá - família

 

Antes que Eu Vá sobrevive na repetição em cima da mesma personagem e acredito que só quem se identifica com essa história realmente gostará do filme. Não acompanhei as críticas, mas vi que as notas dadas foram até que consideráveis. Fato que ornou com meus sentimentos de empatia por esse trabalho. Eu apreciei demais!

 

Este foi o primeiro trabalho da Zoey que assisti. A tristeza que ela deu à sua personagem foi sentida em todo percurso da narrativa. Foi por meio dela que me vi tocadíssima do começo ao fim e dou grande parte dos méritos ao voiceover. É esse o peso de Samantha que, depois de tanto questionar, compreende que sua jornada se encerrou.

 

E, pelo que andei lendo, Samantha foi bem suavizada na adaptação. Não estou surpresa.

 

Vale dizer que este filme foi cuidado de perto por olhares femininos. Ry Russo-Young, diretora, e Maria Maggenti, roteirista famosa por Monte Carlo, trazem o uníssono intimista do que se pode perder antes de partir. Da vida que você não viveu. Das ações que você não tomou. Das coisas que não disse. Das experiências que burlou. Para além do voiceover, há um cuidado com detalhes que situam as repetições tão quanto o filtro do filme, que orna a atmosfera de inverno.

 

Um inverno que expressa a desolação de deixar de existir.

 

Eu me senti profundamente conectada a esse filme. Ainda mais por ter vivido um dia pra lá de especial e que nunca esquecerei. Por ter visto a Stefs adolescente em Samantha no quesito atitude para com as pessoas. Esta adaptação foi uma grata surpresa para quem não esperava nada – além de zoar com a irmã por curtir algo sem sentido, o que não rolou.

 

Antes que Eu Vá mexeu com um tipo de realismo que sempre dei um jeito de contornar pela tangente. Por muito tempo da minha vida, nunca me dispus a estar lá. Não porque não achava o momento importante, mas porque eu não me achava importante para estar lá. Meu complexo de inferioridade mandou um oi!

 

Por um bom tempo, sempre tive em mim que nada na minha presença alteraria alguma coisa, mas são em alguns espasmos da vida, como ter ido com a minha irmã até a universidade, que enxergo que minha presença é sim importante.

 

Como ouvir da mana que trabalha comigo que precisa de mim para manter os jobs circulando e eu não acredito porque, às vezes, bate no meu senso de não me envolver emocionalmente com as pessoas. Sendo que a vida pede relevância da nossa parte. Não pelos marcos, pelos sucessos, mas para simplesmente estarmos lá.

 

Antes que Eu Vá - migas

 

A vida exige que sejamos mais abertos para tudo que pode vir de positivo na nossa direção. E de ruim também, por que não? Mas, às vezes, simplesmente escolhemos fechar as portas ou achar que nada do que fazemos faz diferença.

 

Sendo que um bom dia pode mudar todas as nuances de um dia.

 

Antes que Eu Vá quer provocar a reflexão sobre a vida. Se você estiver disposição, é provável que uma luz entre em seu coração. Eu mesma saí aos prantos, porém, com meu coração um tanto mais quente. Com a consciência de que nossa vida é curta sim e os instantes que nos são dados precisam ser apreciados como se fossem os últimos. Uma realização que não é de agora, obviamente…

 

Como Samantha conclui, vários momentos têm a habilidade de durar para sempre. Mesmo depois do fim. O que vivi com a minha irmã no mencionado sábado ainda circula e sou grata por ter estado lá.

 

Como tê-la na minha formatura foi igualmente importante.

 

O hoje importa. Muito mais que o amanhã. O que fazemos hoje tem seu impacto e influência no amanhã. Sejamos mais conscientes disso porque uma vez que o looping entra é sinal de que pode ter sido tarde demais.

 

E, do fundo do meu coração, eu espero que não.

 

Antes que Eu Vá deixou sua marca em mim pela reflexão proposta. Não é um filme perfeito, especialmente porque salta completamente o impasse de Juliet. Não há realmente um desenvolvimento de personagens e a trama não deixa de ser rasa. Até um tanto confusa. O que é compreensível porque o ponto de vista é de Samantha e é ela quem comanda quem quer ser e como quer ver/tratar o outro. E é importante ter isso em mente por se tratar de sua visão de mundo.

 

Não é uma premissa que traz algo novo sobre repensar a vida, mas faz repensar em meio a uma beleza simples e genuinamente melancólica sobre o tempo que temos aqui e que pode não ser o bastante.

 

O filme está disponível no Amazon Prime Video. Divirtam-se! ❤

Stefs
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